Como o Comportamento Organizacional e as Neurociências facilitam a Inovação Pedagógica.
A inovação pedagógica é frequentemente apresentada como uma questão de metodologias ou de desenvolvimento profissional. Contudo, a experiência e a investigação em comportamento organizacional e nas neurociências organizacionais demonstram que muitas propostas tecnicamente consistentes encontram dificuldades quando são introduzidas nas escolas, não por falta de competência dos professores, mas porque a mudança pode ser percecionada como uma ameaça à identidade profissional, à autonomia, ao estatuto, à previsibilidade ou ao sentido de pertença. Neste contexto, o Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©) propõe uma arquitetura de formação organizada em dois níveis complementares, concebida não apenas como uma opção didático-pedagógica, mas também como uma estratégia de implementação da inovação. O presente artigo defende que esta estrutura encontra um sólido enquadramento na literatura do comportamento organizacional e das neurociências organizacionais, evidenciando que a adoção sustentável de novas práticas depende tanto da qualidade das propostas pedagógicas como da forma como o processo de mudança é compreendido, gerido e vivido pelos profissionais e pelas organizações escolares.
Em última análise, o MPMH© parte do princípio de que não basta ensinar novos instrumentos ou metodologias; é igualmente necessário compreender como as pessoas, os grupos e as organizações mudam. É esta perspetiva que aproxima o modelo das abordagens contemporâneas da implementação da inovação, onde a transformação pedagógica constitui apenas o primeiro nível de um processo mais amplo de mudança organizacional, cultural e, por fim, paradigmática.

Este esquema traduz uma das ideias mais interessantes que emerge:
O MPMH© não pretende começar por alterar o paradigma da Educação Física. Começa por introduzir mudanças na prática pedagógica; quando essas mudanças se consolidam, influenciam a organização escolar, contribuem para uma transformação da cultura profissional e só então criam condições para uma eventual mudança paradigmática. Essa sequência é consistente com a literatura sobre gestão da mudança, segundo a qual transformações profundas raramente ocorrem de forma direta ou imediata; emergem da acumulação de mudanças graduais que, ao longo do tempo, reconfiguram as formas de pensar e de agir. Isso reforça a coerência entre o MPMH© e os contributos do comportamento organizacional e das neurociências aplicadas às organizações.
Estratégia sustentável de inovação pedagógica
No Manual de Comportamento Organizacional e Gestão, Miguel Pina e Cunha e colaboradores defendem que a resistência à mudança não constitui uma simples atitude individual de oposição, mas um fenómeno organizacional complexo, resultante da interação entre fatores individuais, grupais, culturais e estruturais. Nesta perspetiva, as organizações tendem naturalmente a preservar o seu equilíbrio e estabilidade, desencadeando mecanismos de autorregulação sempre que uma mudança ameaça as rotinas estabelecidas. Aplicada à implementação do MPMH©, esta abordagem ajuda a compreender que as resistências à inovação pedagógica decorrem menos da rejeição da mudança em si e mais da forma como esta é percecionada e vivida pelos diferentes atores da organização escolar.
Os principais fatores de resistência podem sintetizar-se da seguinte forma:
| Fonte da resistência | Fundamentação no comportamento organizacional | Como pode surgir perante o MPMH© |
| Inércia organizacional (hábitos e rotinas) | As organizações tendem a reproduzir práticas estabilizadas, pois reduzem o esforço cognitivo, aumentam a previsibilidade e conferem sensação de segurança. | “Sempre fizemos assim.” Resistência à alteração das práticas habituais de ensino da Educação Física. |
| Aversão à incerteza | A mudança aumenta a imprevisibilidade, diminui a sensação de controlo e pode gerar ansiedade perante o desconhecido. | Receio de experimentar novas metodologias, instrumentos ou formas de avaliação. |
| Custos de aprendizagem | Aprender novas competências exige investimento de tempo, energia e disponibilidade para abandonar automatismos anteriores. | “Não tenho tempo para aprender outro modelo.” ou “Já tenho demasiado trabalho.” |
| Ameaça à identidade profissional | A mudança pode ser interpretada como uma crítica implícita às práticas anteriormente desenvolvidas, colocando em causa a autoimagem profissional. | Professores experientes podem sentir que a sua experiência está a ser desvalorizada. |
| Interesses instalados | Determinados atores ou estruturas podem beneficiar do funcionamento atual e, por isso, não reconhecer vantagens na mudança. | Coordenações, departamentos ou grupos estabilizados podem preferir manter os procedimentos existentes. |
| Pressão normativa do grupo | As equipas tendem a proteger normas implícitas de funcionamento e podem sancionar quem adota práticas diferentes das do grupo. | O professor que implementa o MPMH© pode ser visto como “quem quer mostrar serviço” ou “quem quer ser diferente”. |
| Cultura organizacional | Valores, crenças e pressupostos partilhados orientam o comportamento coletivo, muitas vezes de forma implícita. | A convicção de que a Educação Física deve centrar-se prioritariamente no ensino das modalidades desportivas pode dificultar a aceitação de uma abordagem centrada na Motricidade Humana. |
| Estrutura burocrática | Organizações fortemente formalizadas privilegiam a estabilidade, o cumprimento de procedimentos e a minimização do risco. | “Primeiro precisamos de autorização para tudo.” ou receio de que a inovação não esteja enquadrada legalmente. |
| Falta de sentido percebido | As pessoas aderem mais facilmente à mudança quando compreendem claramente o problema que esta pretende resolver e o valor acrescentado que produz. | “Que problema concreto resolve o MPMH©?” ou “Porque precisamos de mudar se o sistema já funciona?” |
A articulação entre o Comportamento Organizacional e as Neurociências Organizacionais permite compreender que a resistência à mudança não resulta, necessariamente, de oposição à inovação, mas da interação entre fatores psicológicos, sociais, culturais e neurobiológicos. Enquanto Miguel Pina e Cunha e colaboradores explicam a mudança ao nível das dinâmicas organizacionais, David Rock demonstra, através do modelo SCARF, como o cérebro reage à perceção de ameaça.
Modelo SCARF de David Rock:
- S – Estatuto (Status)
- C – Certeza (Certainty)
- A – Autonomia (Autonomy)
- R – Pertença (Relatedness)
- F – Justiça (Fairness)
| Dimensão | Pergunta implícita do cérebro |
| Estatuto | “Sou valorizado e respeitado?” |
| Certeza | “Sei o que vai acontecer?” |
| Autonomia | “Tenho margem de escolha e controlo?” |
| Pertença | “Faço parte deste grupo e sinto-me seguro com estas pessoas?” |
| Justiça | “Estou a ser tratado de forma justa e transparente?” |
Integradas, estas perspetivas mostram que a implementação do MPMH© deve ser entendida não apenas como uma inovação pedagógica, mas também como um processo de gestão da mudança que reforça o reconhecimento, a clareza, a autonomia, a pertença e a justiça percebidas pelos professores.
| Dimensão | Quando é ameaçada… | Resultado |
| Estatuto (Reconhecimento) | Estatuto (ou Reconhecimento) | Perceção do valor, competência, prestígio e reconhecimento social. |
| Certeza | Certeza | Grau de previsibilidade, clareza e segurança relativamente ao futuro. |
| Autonomia | Autonomia | Perceção de controlo sobre as próprias ações e decisões. |
| Pertença (ou Vinculação) | Pertença (ou Vinculação) | Sentimento de confiança, proximidade e integração no grupo. |
| Justiça (ou equidade) | Justiça (ou Equidade) | Perceção de tratamento justo, imparcial e transparente. |
O MPMH© não é apenas um modelo pedagógico, mas também uma estratégia de gestão da mudança. Os dois níveis de formação respondem a necessidades diferentes do modelo SCARF.
| Dimensão SCARF | MPMH© Nível I (Pedagogia e Didática) | MPMH© Nível II (Fundamentos Epistemológicos) |
| Estatuto | Novas ferramentas aumentam a eficácia e reforçam a confiança profissional sem desvalorizar a experiência anterior. | O professor compreende que o seu papel evolui de executor curricular para agente de transformação pedagógica, reforçando a identidade profissional. |
| Certeza | Apresenta procedimentos, instrumentos, exemplos de aulas e formas de avaliação, reduzindo a incerteza operacional. | Explica por que razão o paradigma atual apresenta limitações e qual a lógica científica da proposta, conferindo coerência conceptual à mudança. |
| Autonomia | Os instrumentos (GPS Práxico, PPP, BAP, EG, CET, etc.) são adaptáveis à realidade de cada docente, permitindo diferentes níveis de utilização. | O professor compreende os princípios do modelo e ganha autonomia para criar soluções próprias, em vez de aplicar técnicas de forma mecânica. |
| Pertença | A formação promove partilha de práticas, colaboração entre docentes e apoio entre pares durante a implementação. | Favorece uma comunidade de investigação e reflexão crítica, unida por uma visão comum da Educação Física enquanto espaço de desenvolvimento humano. |
| Justiça | O MPMH© demonstra compatibilidade com o DL 54/2018, DL 55/2018, Aprendizagens Essenciais e critérios de avaliação, evitando a perceção de imposição arbitrária. | A mudança é apresentada como evolução paradigmática e não como desvalorização do trabalho desenvolvido anteriormente pelos professores. |
Um dos principais contributos de Miguel Pina e Cunha e colaboradores consiste em demonstrar que a resistência à mudança raramente corresponde a uma oposição à inovação em si. Na maioria das situações, trata-se de uma resposta racional à perceção de risco, associada à possível perda de competência, estatuto, segurança, autonomia, ao aumento da carga de trabalho ou à falta de confiança em quem propõe a mudança.
Esta resistência manifesta-se em quatro níveis complementares.
- Ao nível individual, relaciona-se com hábitos, receio do desconhecido, necessidade de segurança ou baixa perceção de autoeficácia.
- Ao nível grupal, resulta das normas informais, da pressão dos pares e da cultura do departamento.
- Ao nível organizacional, decorre da própria estrutura da escola, que privilegia a estabilidade através de regulamentos, critérios, horários e procedimentos.
- Finalmente, ao nível cultural, a resistência assenta em pressupostos profundamente enraizados sobre a natureza da Educação Física, como a ideia de que “Educação Física é desporto”, que “avaliar é medir desempenho” ou que “a competição é o principal motor da aprendizagem e desenvolvimento”, ou ainda “o desporto é uma escola de valores”. É neste último nível que a análise do comportamento organizacional se aproxima da teoria dos paradigmas, evidenciando que a transformação educativa exige não apenas novas práticas, mas também a revisão dos pressupostos que as sustentam.
A Profundidade da Mudança e os Dois Níveis de Formação do MPMH©

Um dos principais contributos da literatura sobre comportamento organizacional consiste em demonstrar que a intensidade da resistência tende a aumentar à medida que a mudança se torna mais profunda. Alterações metodológicas são, geralmente, bem aceites; mudanças que questionam pressupostos, valores e identidades profissionais tendem a gerar maior resistência.
Esta perspetiva permite compreender a arquitetura formativa do MPMH©. O modelo não propõe apenas novas metodologias, mas diferentes níveis de transformação profissional.
| Nível do MPMH© | Tipo de mudança | Resistência expectável |
| Nível I – Formação Pedagógica Aplicada | Mudança metodológica e instrumental | Baixa a moderada |
| Nível II – Formação Epistemológica e Paradigmática | Mudança conceptual, cultural e paradigmática | Elevada |

O Nível I centra-se no desenvolvimento de competências pedagógicas e didáticas para implementar o modelo com segurança. A aprendizagem de instrumentos como o GPS Práxico©, PPP©, BAP©, EG© e CET© reforça a confiança, aumenta a clareza e preserva a identidade profissional do docente, reduzindo a perceção de ameaça descrita pelo modelo SCARF.

O Nível II situa-se num plano distinto. O seu objetivo não é ensinar novas ferramentas, mas promover uma reflexão crítica sobre os fundamentos da Educação Física. A questão deixa de ser «Como ensino?» para passar a ser «Porque ensino desta forma?». Trata-se de uma mudança epistemológica que implica reconstruir pressupostos, rever crenças e redefinir a identidade profissional, razão pela qual tende a suscitar maior resistência. Sem um enquadramento progressivo — assegurado pelo Nível I, que proporciona segurança pedagógica e reduz a perceção de ameaça — esta transição poderá provocar dissonância cognitiva (Festinger, 1957), levando os docentes a defenderem as suas conceções anteriores como forma de preservar a coerência entre identidade, experiência e prática profissional.

Esta organização aproxima o MPMH© das teorias contemporâneas da mudança organizacional, segundo as quais a inovação sustentável depende não apenas da qualidade técnica das propostas, mas também da criação de condições cognitivas, emocionais e sociais que permitam aos profissionais abandonar um paradigma e apropriar-se progressivamente de outro.
Relação entre profundidade da mudança e resistência:
| Tipo de Mudança | Resistência |
| Novo exercício | Muito baixa |
| Nova estratégia | Baixa |
| Novo instrumento | Moderada |
| Nova metodologia | Média |
| Nova forma de avaliar | Elevada |
| Novo paradigma pedagógico | Muito elevada |
Em síntese, ensinar um novo exercício é relativamente simples; ensinar uma nova forma de compreender a Educação Física é incomparavelmente mais exigente. É precisamente para responder a esta diferença que o MPMH© organiza a sua formação em dois níveis complementares: o primeiro facilita a adoção de novas práticas; o segundo promove a transformação dos pressupostos que lhes dão sentido.
| Aspeto | Nível I – Formação Pedagógica Aplicada | Nível II – Formação Epistemológica e Paradigmática |
| Foco | Desenvolvimento da prática | Transformação do paradigma |
| Cultura organizacional predominante | Técnico-profissional | Reflexiva e transformadora |
| Tipo de mudança | Metodológica | Epistemológica |
| Risco de resistência | Baixo | Elevado |
| Estado SCARF predominante | Recompensa / Aproximação | Ameaça potencial, mitigado pela preparação anterior |
| Estratégia | Introdução de ferramentas | Questionamento e reconstrução dos pressupostos |
| Papel do professor | Experimentador | Investigador da própria prática |
| Resultado esperado | Melhoria das aprendizagens | Transformação da cultura pedagógica |
A Maior Resistência não é Técnica; é Identitária
A principal conclusão da literatura sobre comportamento organizacional é que os maiores obstáculos às mudanças profundas raramente residem na dificuldade de aprender novas técnicas ou instrumentos. A resistência emerge sobretudo quando a mudança questiona as crenças, os valores e a identidade profissional que orientam a ação.
Quando uma proposta pedagógica desafia a forma como os professores compreendem o corpo, a aprendizagem, a avaliação ou a própria missão da Educação Física, deixa de estar apenas em causa uma nova metodologia; está em causa uma nova forma de interpretar a profissão.
Nesta perspetiva, a resistência à mudança não deve ser entendida como conservadorismo ou falta de abertura, mas como um mecanismo natural de preservação da estabilidade, da identidade e da previsibilidade organizacional. O desafio deixa, assim, de ser “como vencer a resistência?” para passar a ser “como criar condições para que os profissionais atribuam sentido à mudança e a integrem na sua identidade?”.
É precisamente neste ponto que a arquitetura formativa do MPMH© revela a sua coerência com a literatura contemporânea do comportamento organizacional. O Nível I facilita a adoção de novas práticas pedagógicas através de instrumentos concretos, reduzindo a perceção de ameaça e promovendo confiança na implementação. O Nível II promove uma reflexão epistemológica sobre os pressupostos da Educação Física, favorecendo uma transformação progressiva da identidade profissional e da cultura pedagógica.

Desta forma, o MPMH© parte do princípio de que as escolas não mudam apenas porque recebem novas metodologias. Mudam quando os professores conseguem atribuir significado às novas práticas e integrá-las, de forma progressiva, na sua maneira de compreender, viver e exercer a profissão. A organização da formação em dois níveis constitui, por isso, não apenas uma opção pedagógica, mas uma estratégia de gestão da mudança orientada para uma inovação sustentável das culturas profissionais.
Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física.
Fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia)
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