Como uma memória antiga se tornou o mapa invisível da construção do MPMH©
Existem experiências que atravessam décadas em silêncio. Não desaparecem. Não se impõem. Simplesmente permanecem connosco, como uma imagem guardada numa gaveta da memória que só mais tarde revela o seu verdadeiro significado.
Há muitos anos, num período particularmente difícil da minha vida — marcado pela tristeza, pela angústia, incerteza e pela sensação de me encontrar numa encruzilhada existencial —, decidi caminhar junto à Lagoa do Saloio, em Valado dos Frades. Não procurava respostas; talvez procurasse apenas espaço para pensar. Iniciei um percurso circular que partia da lagoa e regressava à lagoa. Naquele momento, não imaginava que aquela caminhada ficaria gravada na minha memória como uma espécie de mapa simbólico do meu próprio percurso de vida.
A Bifurcação e o Peso da Responsabilidade
Logo na fase inicial surgiu uma bifurcação. Escolhi um dos caminhos. Mas, antes de avançar, aconteceu algo que nunca consegui explicar completamente: acima de mim surgiu a imagem, na minha visão interior, de uma multidão imensa de figuras vestidas de branco. Não falavam. Não interagiam. Não transmitiam qualquer mensagem concreta. Estavam apenas presentes, mas senti que esperavam algo de mim, como se dependessem de mim.
Durante muitos anos considerei essa experiência uma simples curiosidade da memória e hoje continuo sem saber interpretá-la racionalmente. Mas permaneceu em mim uma sensação muito particular: a sensação de responsabilidade. Como se algo estivesse à espera. Como se existisse uma tarefa ainda por realizar.
Hoje sei claramente que foi uma premonição ou antecipação do caminho que se viria a desenrolar.
Os Primeiros Obstáculos: O Desgaste em Alcobaça
Continuei a caminhar. Ao longo do percurso surgiram pequenos obstáculos, zonas mais difíceis, passagens que exigiam atenção e destreza. Hoje vejo neles uma metáfora das muitas etapas que foram moldando o meu percurso profissional.
Recordo particularmente os anos vividos na Escola Secundária D. Inês de Castro. Foi uma fase exigente, intensa e emocionalmente desgastante, onde fui confrontado com as questões que mais tarde se tornariam centrais na minha reflexão pedagógica:
A Desconstrução do Mito dos Valores:
Foi ali que comecei a questionar profundamente a relação entre o desporto e a formação humana. Observei comportamentos agressivos, desrespeito, competição exacerbada e dinâmicas que contrariavam frontalmente a narrativa de que o desporto é, por natureza, uma escola de valores, sobretudo em alunos com formação desportiva no futebol.
O Ponto de Rutura:
Vivi conflitos com lideranças autoritárias e experimentei os limites da minha própria resistência emocional, ao ponto de ponderar abandonar a profissão docente. O ponto de rutura foi marcado pela submissão de um requerimento para rescisão por mútuo acordo em fevereiro de 2014, pois sentia que o sistema de ensino e a Educação Física tinham deixado de fazer sentido. Quis o destino que o meu pedido fosse recusado.
Em vez de me submeter à engrenagem logística, usei a própria disfunção da escola pública como a matéria-prima para criar o MPMH.
A Semente da Transcendência:
Paradoxalmente, foi igualmente nessa fase que surgiram as primeiras tentativas de inovação: o clube de parkour, os pneus como recurso pedagógico, as experiências de personal training em Educação Física e a procura de modelos que explicassem as atitudes passivo-agressivas dos alunos. Não procurava apenas novas metodologias; precisava de me transcender a mim e à forma como praticava a Educação Física.
A Recompensa
Mais tarde encontrei contextos mais favoráveis, escolas mais abertas à inovação onde as ideias encontraram espaço para respirar. No Agrupamento de Escolas Fernando Casimiro Pereira da Silva senti-me valorizado na minha criatividade, inovação e contribui para a criação de projetos que fizeram a diferença na escola. Esta fase estava representada por partes da caminhada mais fluida, sem obstáculos e por caminhos menos acidentados.

A Casa Abandonada: O Simbolismo de Santa Catarina
Mas, durante a caminhada, houve um momento que permaneceu particularmente vivo: o encontro com uma casa abandonada, parcialmente destelhada, coberta por vegetação e com muros caídos. Detive-me a observá-la.
Quanto mais reflito sobre essa imagem, mais encontro nela uma correspondência simbólica com a Escola Básica de Santa Catarina. Não pelo estado físico do edifício, mas pelo significado que aquele lugar adquiriu no meu percurso.
Uma instituição construída para acolher o crescimento humano, mas que, em muitos momentos, parece abandonada às silvas da burocracia, da certificação e da rotina. Uma estrutura que continua de pé, mas cuja finalidade original se encontra parcialmente esquecida.
Santa Catarina sempre representou uma visão de educação à escala humana: um lugar onde as relações têm tempo para acontecer, onde os alunos não são estatísticas e onde existe espaço para dialogar e construir sentido. Apesar das suas fragilidades e da perda significativa de alunos, ela lembra o que a educação foi criada para ser. O meu forte impulso em regressar a Santa Catarina não nasce apenas da procura de condições favoráveis para o MPMH©; nasce da vontade humanista de participar na reconstrução de uma Educação Física que coloca a pessoa antes do sistema, o desenvolvimento antes da certificação e a aprendizagem antes da mera transmissão de conteúdos. É o desejo de cuidar daquela casa que foi esquecida pelas lógicas da eficiência organizacional.
Durante anos olhei para aquela escola como:
- Uma boa escola;
- Um lugar tranquilo;
- Um contexto favorável.
Mas só agora ela adquiriu uma dimensão quase arquetípica. Passou a representar:
- Educação humanista;
- Comunidade;
- Escala humana;
- Sentido.
Ou seja:
Santa Catarina deixou de ser apenas um lugar. Transformou-se num símbolo!…
Atravessar o Morro
Escola Secundária de Rio Maior
Contudo, ao revisitar a metáfora da caminhada, apercebo-me de um detalhe crucial: a casa não surgia no final do percurso. Surgia antes do morro. Antes da última fase mais exigente da viagem.
Talvez isso significasse que ainda havia algo que precisava de ser vivido, aprendido e sofrido antes do regresso. Era necessário atravessar o morro. Era necessário enfrentar os desafios de Rio Maior.
Muitos anos depois daquela caminhada, cheguei ao morro real. Uma subida íngreme, sinuosa, com vegetação densa e pouca visibilidade, que obrigava a avançar sem ver o que existia para lá dela. Reconheço nele, com exatidão, os meus últimos anos:
- Turmas particularmente desafiantes e exigências acrescidas;
- Questionamento constante da autoridade e participações disciplinares;
- O peso acumulado da Direção de Curso e uma turma de desporto desafiadora, difícil e desgastante;
- Conflitos com encarregados de educação e responsabilidades administrativas crescentes.
- Responsabilidade grande e exigente como Diretor das Instalações.
- Direção de Turma desafiante.
- E sobretudo muito trabalho (sobrecarga).
- Nos últimos dois anos, Rio Maior foi um terreno de “fogo cruzado”.
O Morro como Incubadora:
No final de dois anos letivos, já não interpreto Rio Maior apenas como um obstáculo infeliz. Porque há um facto impossível de ignorar: foi precisamente durante esta fase em Rio Maior que nasceu o Modelo Pedagógico da Motricidade Humana©.
As inquietações e as perguntas acumulavam-se há décadas, mas foi sob a pressão daquele contexto que surgiu a necessidade de organizar tudo numa arquitetura coerente. O morro foi uma incubadora, um espaço de síntese onde as experiências dispersas convergiram. O MPMH© não nasceu apesar da massificação, do roulement ou da perda de sentido da Educação Física; nasceu em diálogo direto com eles, porque eles existiam.
O Horizonte e o Verdadeiro Regresso.
Os percursos mais importantes da nossa vida raramente são construídos pelos momentos de conforto; são moldados pelos obstáculos que nos obrigam a transformar a forma como vemos o mundo.
Quando recordo a parte final do morro, lembro-me sobretudo da sensação de que a saída estava próxima. Ainda não era a chegada, mas já era possível ver o horizonte — exatamente onde me encontro agora passados dois anos letivos.
E talvez seja precisamente essa a diferença: durante muito tempo procurei uma escola onde pudesse implementar um projeto; hoje compreendo que o mais importante era construir primeiro a obra.
O verdadeiro significado do regresso à lagoa não consiste em voltar ao ponto de partida de forma idêntica. Consiste em regressar transformado (Transcender), trazendo comigo algo que antes não existia: uma obra amadurecida pelas dúvidas, pelas resistências, pelos fracassos e pelas provações.
E talvez, só talvez, fosse isso que aquelas figuras silenciosas vestidas de branco aguardavam junto à bifurcação, há tantos anos. Não o sucesso fácil ou o reconhecimento burocrático, mas a concretização daquilo que o percurso, lentamente, me estava a preparar para construir. Ou talvez simbolizem aqueles que irão herdar este novo paradigma da Educação Física.
O que me chama a atenção no percurso simbólico
Podemos identificar 3 etapas:
| Símbolo | Significado |
| Casa | Visão da educação que pretendo preservar |
| Morro | Provação necessária para construir a obra |
| Lagoa | Entrega da obra ao mundo |
Evolução:
| Passado | Presente |
| Há alguns anos escrevia artigos sobre Educação Física. | Hoje escrevo narrativas sobre significado. |
| Há alguns anos procurava metodologias. | Hoje procuro coerência. |
| Há alguns anos procurava “a escola“. | Hoje procuro um legado. |
- A casa é a Visão.
- O Morro é a construção.
- E a lagoa representa algo que continua por acontecer: a fase em que a obra deixa de ser apenas minha e começa verdadeiramente a pertencer à comunidade educativa.

Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física.
Fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia)
© 2026 João Manuel Ferreira Jorge
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