Da Adesão Formal à Autorregulação Real
Da resistência inicial à cooperação genuína: o tempo, a persistência pedagógica e os desafios de transformar a conduta dos alunos.
Quando a inovação pedagógica encontra a resistência
Implementar uma nova abordagem pedagógica constitui um desafio que vai muito além da alteração das tarefas, da organização dos grupos ou da distribuição de responsabilidades. Quando um professor decide criar um ambiente de Aprendizagem Cooperativa (AC), espera, naturalmente, que os alunos reconheçam as vantagens da mudança, participem nas atividades e desenvolvam progressivamente maior autonomia, responsabilidade e espírito de equipa.
A realidade, porém, pode revelar-se bastante diferente das expectativas iniciais.
Em vez da cooperação desejada, o professor pode encontrar dispersão, conversas fora da tarefa, dificuldade em escutar os colegas, incumprimento dos papéis atribuídos, dependência constante da sua intervenção e uma participação que, embora formalmente adequada, não corresponde a um compromisso efetivo com o trabalho coletivo.
Esta realidade pode gerar frustração, desapontamento e dúvidas legítimas. Perante a persistência dos comportamentos, o professor pode questionar-se se a estratégia escolhida é adequada, se os alunos estão preparados para trabalhar cooperativamente ou se deveria regressar a uma organização mais diretiva, centrada no controlo da aula.
Estas dúvidas tornam-se particularmente relevantes quando a mudança pedagógica exige ao próprio professor uma transformação da sua intervenção: passar de uma lógica predominantemente centrada na instrução e no controlo externo para uma postura de facilitação, mediação, apoio e desenvolvimento da autonomia.
Importa, contudo, reconhecer que a mudança da postura docente não produz automaticamente uma mudança equivalente na conduta dos alunos. O professor pode criar condições para a cooperação, mas os alunos necessitam de aprender a funcionar nesse novo contexto, sobretudo quando as suas experiências escolares anteriores valorizaram predominantemente a realização individual, a resposta às instruções e a intervenção reguladora do adulto. A questão central deixa, por isso, de ser apenas como organizar a Aprendizagem Cooperativa e passa a incluir outra interrogação:
Como compreender e acompanhar a transição entre a resistência inicial, o cumprimento formal das regras e a apropriação efetiva de uma cultura de responsabilidade partilhada?
É neste problema que se situa a reflexão desenvolvida no âmbito do Modelo Pedagógico, a partir da experimentação pedagógica em contexto real de Educação Física.
1. A resistência inicial: quando os alunos ainda não reconhecem o sentido da mudança
Os comportamentos de resistência não devem ser automaticamente interpretados como rejeição consciente do professor ou como incapacidade dos alunos para cooperar. Podem traduzir um desajustamento entre as expectativas construídas a partir de experiências anteriores e as exigências da nova organização pedagógica.
Para alunos habituados a realizar exercícios individualmente, cumprir instruções diretas e depender do professor para organizar a atividade, assumir responsabilidades partilhadas implica uma mudança significativa. Já não basta executar uma tarefa: é necessário compreender o próprio papel, respeitar os compromissos assumidos, atender às necessidades dos colegas e contribuir para um resultado coletivo.
Esta transição pode provocar desconforto. O trabalho de grupo pode ser percecionado como uma interrupção da atividade física, os papéis cooperativos podem parecer artificiais e os momentos de reflexão podem ser considerados menos importantes do que a realização motora. Ao mesmo tempo, a liberdade de decisão pode ser confundida com a possibilidade de agir sem respeitar as regras comuns.
O estudo de Bjørke e Moen (2020), baseado em 24 aulas de Aprendizagem Cooperativa, documenta precisamente o desafio inicial de passar de uma experiência de Educação Física centrada na atividade, no jogo e na diversão para uma experiência que exige aprender com, para e através dos colegas. Os autores descrevem uma mudança progressiva das atitudes dos alunos, apoiada em experiências repetidas e num trabalho sistemático sobre os objetivos de aprendizagem.
A resistência inicial deve, portanto, ser observada e interpretada, não simplesmente tolerada nem imediatamente tomada como prova de fracasso.
Comportamentos como abandonar a estação, conversar fora da tarefa, banalizar os papéis, participar sem empenho ou recorrer continuamente ao professor podem indicar que a estrutura cooperativa ainda não foi interiorizada. Mas também exigem intervenção: compreender a dificuldade não significa aceitar que ela comprometa indefinidamente o trabalho e a aprendizagem.
O professor precisa de distinguir a dificuldade em aprender a cooperar da recusa persistente em respeitar as condições necessárias à aprendizagem. Esta distinção permite combinar compreensão pedagógica com exigência, paciência com consistência e liberdade com responsabilidade.
2. Da adesão formal à apropriação: três momentos de transformação
A passagem para uma cultura cooperativa pode ser compreendida através de três momentos fundamentais. Não constituem etapas rígidas nem necessariamente sucessivas para todos os alunos, mas ajudam a interpretar a qualidade da participação observada.
2.1. Aceitar a estrutura cooperativa
O primeiro momento corresponde ao reconhecimento de que a aula passou a funcionar segundo uma organização diferente.
O aluno compreende que existem grupos, papéis, responsabilidades, regras e momentos de reflexão. Pode, contudo, continuar a questionar a metodologia, a comparar a nova organização com as aulas anteriores ou a procurar a intervenção do professor perante dificuldades que o grupo deveria começar a resolver.
A aceitação da estrutura representa um primeiro passo, mas não demonstra ainda adesão efetiva aos seus princípios.
2.2. Cumprir a estrutura cooperativa
Num segundo momento, o aluno começa a desempenhar os papéis e a executar as tarefas previstas. A participação torna-se mais regular, embora possa continuar dependente de lembretes, vigilância e chamadas de atenção.
É nesta fase que pode surgir uma discrepância importante entre o cumprimento formal e o compromisso real. O aluno pode assumir aparentemente o seu papel sem desempenhar a função correspondente; pode permanecer na estação sem participar efetivamente; ou pode concordar com as regras durante a reflexão e voltar a ignorá-las durante a atividade.
A organização cooperativa existe, mas a sua função educativa ainda não se encontra plenamente apropriada.
2.3. Apropriar-se da estrutura cooperativa
O terceiro momento corresponde a uma transformação qualitativa da participação. O aluno deixa progressivamente de cumprir apenas porque o professor exige e começa a compreender o sentido das responsabilidades assumidas. Reconhece que a sua ação interfere com o funcionamento do grupo, identifica necessidades, corrige desvios e ajusta o comportamento em função dos objetivos comuns.
A cooperação deixa de ser apenas uma estrutura externa e começa a orientar a própria conduta.
Esta progressão pode sintetizar-se em três afirmações:
- Aceitar: Percebo que agora trabalhamos desta maneira.
- Cumprir: Faço o meu papel porque é isso que a aula exige.
- Apropriar-se: Faço o que é necessário porque compreendo que a minha ação interfere com os outros.
A diferença entre estes momentos é essencial para o professor. Uma turma pode cumprir muitas regras e continuar a revelar uma cultura cooperativa frágil. O objetivo não é apenas obter conformidade comportamental, mas desenvolver progressivamente a capacidade de compreender, assumir e regular a responsabilidade individual e coletiva.
3. A necessidade de tempo: o que a investigação nos permite esperar
A Aprendizagem Cooperativa não se consolida automaticamente pela formação de grupos ou pela distribuição de funções. Exige que os alunos aprendam competências sociais, compreendam os objetivos da atividade, assumam responsabilidades individuais e desenvolvam formas de interação que favoreçam a aprendizagem dos colegas.
A investigação disponível ajuda a compreender esta exigência, embora não estabeleça um calendário universal para a transformação dos comportamentos.
Bjørke e Moen (2020) acompanharam uma turma ao longo de 24 aulas, distribuídas por quatro unidades de seis semanas ao longo de dois anos letivos. O estudo identificou mudanças nas atitudes perante a Aprendizagem Cooperativa, na compreensão dos objetivos de aprendizagem e no desenvolvimento social e emocional. Um dado particularmente elucidativo é o relato de que apenas na 17.ª aula surgiram evidências de todos os alunos conseguirem trabalhar construtivamente em conjunto nos seus grupos.
Este resultado não significa que seja necessário esperar 17 aulas para qualquer turma funcionar cooperativamente. Mostra, antes, que a consolidação pode exigir mais tempo do que o professor inicialmente prevê e que os alunos não evoluem todos ao mesmo ritmo.
A revisão sistemática de Bores-García et al. (2021) identificou, por sua vez, uma predominância de intervenções de curta duração na investigação analisada, salientando as limitações daí decorrentes para compreender os processos prolongados de implementação.
Casey e Goodyear (2015) também sublinharam a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre os resultados da Aprendizagem Cooperativa para além de unidades de ensino breves, incluindo os efeitos sociais e afetivos.
Em conjunto, estes trabalhos sustentam a importância da continuidade, mas não validam diretamente as fases temporais propostas neste artigo. Os intervalos apresentados na secção seguinte constituem, assim, um referencial prospetivo de acompanhamento pedagógico, construído para orientar a observação e a reflexão docente, e não uma sequência cronológica comprovada experimentalmente. Esta distinção é fundamental: o professor necessita de referências para interpretar o processo, mas não deve transformar essas referências em prazos rígidos ou expectativas universais.
4. Um referencial de progressão: cinco fases para acompanhar a turma
Para o professor que inicia a experimentação pedagógica, dispor de uma referência de progressão pode ajudar a compreender o que está a observar, a definir prioridades e a evitar que cada dificuldade seja interpretada como um fracasso global da intervenção.
Propõe-se, por isso, uma trajetória organizada em cinco fases. Os períodos indicados são aproximados, podem sobrepor-se e devem ser ajustados à frequência das aulas, às características dos alunos e à continuidade da implementação.
Fase 1 — Adaptação, resistência e estabilização inicial (1–3 semanas)
Nesta fase, os alunos confrontam-se com uma organização que pode contrariar hábitos estabelecidos. São possíveis o questionamento das regras, a dispersão, a procura constante do professor, a dificuldade em assumir responsabilidades e o cumprimento superficial das tarefas.
O objetivo prioritário não é exigir imediatamente uma cooperação madura, mas tornar compreensível e consistente a estrutura de funcionamento.
O professor deve explicitar o comportamento esperado, ensinar os papéis, demonstrar como se executam, estabelecer limites claros e intervir perante situações que comprometem a segurança ou a aprendizagem. É também importante reconhecer os primeiros comportamentos adequados, mesmo quando ainda são irregulares.
Indicadores de progressão: maior permanência nas estações, execução mais consistente das tarefas, respeito pelas regras de segurança, resposta às orientações e redução gradual das interferências no trabalho dos colegas.
Fase 2 — Familiarização e adesão comportamental (4–6 semanas)
Os alunos começam a conhecer melhor a estrutura e a compreender o que se espera de cada elemento. Alguns comportamentos cooperativos tornam-se mais frequentes, embora a sua manutenção possa continuar dependente da intervenção docente.
Os papéis devem deixar de funcionar como designações meramente formais e passar a ter utilidade real na organização do trabalho. O professor mantém a supervisão, mas começa a devolver aos grupos a responsabilidade de resolver dificuldades simples.
Indicadores de progressão: diminuição das chamadas de atenção, resposta mais rápida às sinalizações, cumprimento mais regular dos papéis e capacidade de retomar a tarefa após uma intervenção breve.
Fase 3 — Autorregulação inicial (7–10 semanas)
Nesta fase, podem surgir sinais de que alguns alunos começam a reconhecer os próprios desvios e a corrigi-los. Os grupos reorganizam tarefas, retomam a atividade sem intervenção imediata e procuram resolver pequenos problemas antes de recorrer ao professor.
A evolução não é necessariamente homogénea: alguns alunos podem demonstrar autonomia enquanto outros continuam a depender de instruções externas.
O professor deve reforçar a capacidade de decisão dos alunos, utilizando perguntas que os ajudem a identificar o problema, considerar alternativas e escolher um ajustamento adequado.
Indicadores de progressão: correção espontânea, reorganização funcional, resolução autónoma de dificuldades simples e diminuição da dependência de lembretes repetidos.
Fase 4 — Atenção ao outro e desenvolvimento da interdependência (10–14 semanas)
A autorregulação começa a ultrapassar o comportamento individual e a incluir a relação com os colegas.
Os alunos são chamados a escutar, esperar, ajudar, incentivar, dar feedback adequado e ajustar a própria ação às necessidades dos restantes elementos. A questão deixa de ser apenas “Estou a cumprir a minha tarefa?” e passa também a ser “O que precisa o grupo de mim para funcionar melhor?.
Esta fase exige tarefas que tornem a interdependência efetiva. A simples proximidade física ou a execução paralela de exercícios não garantem que os alunos precisem realmente uns dos outros.
Indicadores de progressão: ajuda espontânea ou solicitada, escuta efetiva, ajustamento da ação, partilha de responsabilidades e preocupação com a participação dos colegas.
Fase 5 — Apropriação e consolidação da cultura cooperativa (14–16 semanas e seguintes)
Nesta fase, procura-se observar maior consistência na responsabilidade individual e coletiva. Os alunos começam a antecipar necessidades, a resolver problemas, a manter os compromissos e a ajustar a atividade sem depender constantemente do professor.
A cooperação torna-se mais espontânea, mas não significa ausência de conflitos, erros ou necessidade de intervenção docente. Uma cultura cooperativa consolidada não elimina as dificuldades: permite reconhecê-las e enfrentá-las de forma mais autónoma e responsável.
Indicadores de progressão: manutenção dos comportamentos cooperativos em diferentes tarefas, resolução conjunta de problemas, cumprimento dos compromissos, atenção espontânea aos colegas e melhoria autónoma da qualidade da realização.
Estas cinco fases devem ser entendidas como um mapa de observação, não como uma escala de sucesso garantido. A turma pode revelar comportamentos próprios de diferentes fases na mesma aula, e um grupo pode progredir numa dimensão enquanto continua a necessitar de apoio noutra.

5. A paciência pedagógica não significa permissividade
Reconhecer que a aprendizagem cooperativa exige tempo não significa que o professor deva aguardar passivamente pela mudança.
A paciência pedagógica é uma forma de persistência intencional. Implica manter a orientação educativa, observar os comportamentos, ajustar as estratégias, repetir os critérios e criar oportunidades para que os alunos aprendam com as consequências das suas escolhas.
Quando os alunos abandonam as estações, banalizam as responsabilidades, perturbam sistematicamente os colegas ou colocam em causa a segurança, o professor deve intervir. A facilitação e a descentralização da aprendizagem não anulam a autoridade pedagógica.
Se o questionamento reflexivo e a devolução da responsabilidade forem insuficientes, pode ser necessário recorrer temporariamente a uma intervenção mais diretiva, firme e assertiva. O essencial é que a intervenção se mantenha proporcional, coerente e centrada nos comportamentos, sem desvalorizar a pessoa.
A autonomia constrói-se através de uma estrutura consistente, de oportunidades de decisão e de responsabilidades progressivas. Não se desenvolve pela ausência de limites, mas pela compreensão gradual do seu sentido. Para o professor, esta distinção é especialmente importante. Ser paciente com o processo não significa ser indiferente ao comportamento; significa intervir sem perder de vista o desenvolvimento que se pretende promover.

6. A frustração do professor como desafio de reflexão pedagógica
Quando inicia uma experiência de inovação pedagógica, o professor pode sentir que o esforço de preparação, a clareza das orientações e a intenção educativa deveriam produzir uma resposta mais positiva dos alunos.
Quando isso não acontece, a distância entre a expectativa e a realidade pode gerar frustração. Se os comportamentos persistirem, a dúvida pode transformar-se em desapontamento, e o desapontamento pode alimentar a tentação de abandonar prematuramente a experiência ou de interpretar a resistência como prova de que os alunos não estão preparados para a autonomia.
Esta reação é compreensível, mas merece reflexão. O professor não está apenas a implementar uma metodologia diferente: está a pedir aos alunos que aprendam a funcionar segundo uma lógica relacional que pode ser nova para eles.
A resistência observada deve, por isso, desencadear perguntas pedagógicas concretas:
- Os alunos compreendem o sentido das tarefas e dos papéis atribuídos?
- As responsabilidades são claras e observáveis?
- As atividades exigem cooperação real ou permitem que cada aluno trabalhe isoladamente?
- Os comportamentos esperados são ensinados, praticados e retomados de forma consistente?
- Os critérios de avaliação são compreendidos e aplicados com rigor?
- Existem sinais de progresso, mesmo quando a turma ainda não apresenta uma dinâmica cooperativa consistente?
Estas perguntas permitem substituir uma avaliação global e emocional da experiência por uma análise mais precisa das condições de implementação.
O professor deve também distinguir entre a ausência de progresso, a progressão lenta e a existência de dificuldades que exigem reajustamento. Se os mesmos problemas persistirem sem qualquer alteração observável, importa rever as tarefas, a clareza das responsabilidades, a organização dos grupos e a intervenção docente. A referência temporal não deve servir para justificar indefinidamente os problemas, mas para ajudar a interpretá-los e a decidir o que fazer a seguir.
A reflexão sistemática sobre a prática torna-se, assim, uma condição da própria inovação. O professor aprende a observar não apenas se a aula correu bem ou mal, mas que comportamentos ocorreram, em que condições surgiram, como foram regulados e que alterações se verificaram ao longo do tempo.
7. Do controlo externo à responsabilidade partilhada: o papel do professor
A transição para um ambiente cooperativo exige uma intervenção docente que combine estrutura, acompanhamento e progressiva devolução de responsabilidade.
No início, o professor pode ter de explicitar frequentemente as regras, demonstrar os comportamentos esperados e interromper a atividade quando os compromissos são desrespeitados. À medida que os alunos desenvolvem competências de autorregulação, a intervenção pode tornar-se menos imediata, dando lugar ao questionamento, à reflexão e à resolução autónoma de problemas.
Esta mudança não deve ser entendida como uma retirada linear do professor. Há situações em que será necessário voltar a intervir diretamente, sobretudo perante riscos de segurança, conflitos ou incumprimentos persistentes.
O objetivo é ajustar a intervenção às necessidades reais da turma, sem confundir descentralização com abandono da responsabilidade pedagógica.
Esta orientação articula-se com o desenvolvimento da agência humana e da consciência de que a conduta individual produz efeitos na relação com os outros. A cooperação não se reduz a executar corretamente um papel: implica reconhecer o outro como participante efetivo da experiência e assumir responsabilidade pela qualidade da ação coletiva. O professor funciona, assim, como mediador do desenvolvimento desta consciência. Cria as condições, acompanha os comportamentos, devolve responsabilidades e intervém quando necessário, procurando que a regulação externa dê progressivamente lugar à autorregulação e à responsabilidade partilhada.
8. Tornar o progresso visível: observação, Matriz do Espírito de Grupo e CET
Para que o referencial de progressão tenha utilidade prática, o professor precisa de recolher evidências que permitam acompanhar a evolução da turma. A perceção global da aula, embora importante, não é suficiente para distinguir melhorias efetivas de oscilações pontuais.
A observação sistemática pode ser articulada com a Matriz do Espírito de Grupo (EG) e o Círculo de Espírito da Turma (CET).
A Matriz permite que os grupos reflitam sobre o cumprimento das responsabilidades e avaliem os comportamentos observáveis. O CET possibilita aprofundar essa reflexão, confrontando a perceção dos alunos com o feedback do professor e definindo compromissos para a aula seguinte.
A inversão da sequência inicialmente prevista — realizar primeiro a autoavaliação grupal e, depois, o CET — pode revelar-se pedagogicamente útil. Ao explicitar primeiro a sua avaliação, os grupos tornam visíveis os critérios que estão a utilizar. O professor pode, então, confrontar essa perceção com as suas observações, identificar discrepâncias e promover uma reflexão mais fundamentada.
Quando um grupo atribui a classificação máxima apesar de um elemento não ter cumprido o indicador, não se deve concluir automaticamente que existe intenção de ocultação. A discrepância pode revelar critérios mal compreendidos, dificuldade em avaliar criticamente o grupo ou receio de conflito entre colegas. O seu valor pedagógico reside na possibilidade de tornar essas diferenças objeto de reflexão.
A regra do quórum, segundo a qual a classificação máxima exige o cumprimento do indicador pelos quatro elementos, pode reforçar a visibilidade da responsabilidade individual no interior do grupo. Contudo, a sua eficácia deve ser acompanhada: uma regra de classificação, por si só, não elimina o efeito caronista nem garante avaliações honestas.
O professor deve observar, registar e comparar indicadores como:
- Cumprimento efetivo dos papéis e das tarefas;
- Frequência das intervenções corretivas necessárias;
- Capacidade de retomar a atividade sem instrução direta;
- Ocorrência de ajuda, escuta e ajustamento espontâneos;
- Correspondência entre a autoavaliação do grupo e os comportamentos observados;
- Qualidade dos compromissos definidos para a aula seguinte.
Deste modo, a avaliação deixa de ser apenas uma classificação final e passa a integrar o processo de aprendizagem. O professor pode identificar em que dimensões a turma evolui, onde persistem dificuldades e que condições necessitam de ser reajustadas.
9. Um referencial para orientar, não para prever
A trajetória apresentada — adaptação, familiarização, autorregulação inicial, atenção ao outro e consolidação — procura responder a uma necessidade concreta da prática docente: dispor de referências para compreender a mudança sem esperar resultados imediatos nem interpretar todas as dificuldades como fracasso.
Os períodos propostos não foram estabelecidos por uma investigação que tenha validado esta sequência específica. Resultam de uma síntese interpretativa da literatura sobre implementação prolongada da Aprendizagem Cooperativa e de uma hipótese de acompanhamento a confrontar com a evidência recolhida na turma.
A sua utilidade reside na possibilidade de formular expectativas progressivas, identificar comportamentos relevantes e organizar a reflexão pedagógica. Em vez de perguntar apenas se a turma já é cooperativa, o professor pode perguntar que capacidades estão a emergir, quais permanecem frágeis e que intervenção poderá favorecer o passo seguinte.
Esta abordagem permite reconhecer que a progressão não é uniforme. Alguns alunos podem assumir responsabilidades com facilidade, enquanto outros necessitam de maior acompanhamento. Um grupo pode demonstrar elevada eficácia na execução das tarefas e continuar a revelar dificuldades na escuta e na partilha de responsabilidades. A evolução deve, por isso, ser analisada em várias dimensões e ao longo de diferentes situações.A referência temporal não substitui a observação: orienta-a. Não garante resultados: ajuda a formulá-los como objetivos de acompanhamento. E não dispensa o juízo profissional do professor: procura torná-lo mais fundamentado e sistemático.
Conclusão — Persistir, observar e transformar
A passagem da adesão formal à autorregulação real constitui um processo exigente para os alunos e para o professor. Requer continuidade, clareza de objetivos, ensino explícito das competências sociais, responsabilidade individual, interdependência efetiva e oportunidades regulares de reflexão.
Para o professor que inicia uma experimentação pedagógica, compreender esta progressão pode ajudar a gerir as expectativas, enfrentar a frustração e manter a confiança no processo sem abdicar da análise crítica. A resistência inicial não significa necessariamente que o modelo esteja a falhar, mas também não deve ser tomada como garantia de que a mudança ocorrerá espontaneamente.
O caminho exige paciência, mas também rigor. Exige capacidade de compreender os alunos, sem relativizar os compromissos; de descentralizar a aprendizagem, sem abdicar da autoridade pedagógica; e de reconhecer as dificuldades, transformando-as em oportunidades de ajustamento e aprendizagem.
No âmbito deste projeto, a finalidade ultrapassa a organização eficiente do trabalho em grupo. Pretende-se que o aluno desenvolva a capacidade de compreender a própria conduta, reconhecer os seus efeitos nos outros e assumir uma responsabilidade progressivamente mais consciente pela qualidade da ação coletiva.
A cooperação genuína não nasce de uma regra, de uma ficha ou de uma distribuição de papéis. Constrói-se através de experiências repetidas, de relações educativas consistentes e da aprendizagem gradual de que cada elemento tem uma responsabilidade insubstituível no funcionamento do grupo.
O professor não deve esperar que os alunos cheguem à aula já preparados para cooperar. Deve criar as condições para que aprendam a fazê-lo, acompanhar a sua evolução e ajudá-los a transformar o cumprimento externo numa responsabilidade assumida. É nessa passagem — da necessidade de ser regulado para a capacidade de se autorregular e de considerar o outro — que a Aprendizagem Cooperativa pode adquirir um verdadeiro significado educativo.