1. Introdução
A revisão das Aprendizagens Essenciais (AE) de Educação Física, colocada em consulta pública em 2026, representa um momento particularmente relevante para a redefinição do papel da disciplina no sistema educativo português. A posição conjunta da Sociedade Portuguesa de Educação Física (SPEF) e do Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto (CNAPEF) constitui um contributo sólido e tecnicamente fundamentado para este processo.
Contudo, quando analisada à luz de modelos emergentes, como o Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©), torna-se evidente que esta revisão não se limita a uma discussão técnica.
Está em causa uma questão mais profunda: devemos melhorar o modelo atual ou repensar os seus fundamentos?
2. A posição da SPEF e do CNAPEF: uma lógica de consolidação curricular
A análise da SPEF e do CNAPEF revela uma posição globalmente favorável à proposta de revisão das AE, destacando avanços significativos em quatro dimensões estruturantes:
2.1. Coerência e progressão curricular
É valorizado o alinhamento vertical do currículo, assegurando continuidade entre ciclos e evitando ruturas ou redundâncias. Esta lógica reforça uma visão da aprendizagem como processo progressivo e cumulativo.
2.2. Clarificação e operacionalização
A definição explícita do número de matérias por ano introduz maior previsibilidade e estrutura, facilitando o planeamento docente e a gestão curricular.
2.3. Reforço da autonomia das escolas
A introdução de matérias alternativas e a valorização do Projeto de Educação Física permitem adaptar o currículo aos contextos locais, mantendo um referencial comum.
2.4. Centralidade da avaliação
A criação de descritores de desempenho (Proficiente e Avançado) e de um referencial nacional de avaliação constitui, talvez, a principal inovação. Este movimento visa garantir maior equidade e transparência nos processos avaliativos.
Ainda assim, as entidades alertam para um ponto crítico: a ambiguidade do conceito de “Desempenho Proficiente”, propondo a sua associação explícita aos níveis de sucesso escolar (nível 3 / 10 valores).
Em síntese, esta posição traduz uma preocupação clara com a regulação, estabilidade e equidade do sistema.
3. O MPMH©: uma proposta de evolução epistemológica
Em contraste, o MPMH© propõe uma reconfiguração mais profunda da Educação Física, assente numa evolução epistemológica relativamente aos modelos tradicionais.
3.1. O aluno como Ser-Práxico
O MPMH© redefine o aluno como um sujeito de intencionalidade operante, cuja motricidade não é apenas execução, mas expressão existencial. O movimento deixa de ser um conteúdo e passa a ser um meio de construção do sujeito.
3.2. Da literacia física à literacia práxica
Enquanto os modelos tradicionais se centram no “saber mover-se”, o MPMH© propõe o “saber agir”, integrando intenção, ação e reflexão numa lógica de sentido.
3.3. Currículo como projeto
O currículo organiza-se em torno de Projetos Práxicos (de escola e pessoais), estruturados por intencionalidade e não por matérias desportivas. A aprendizagem emerge de percursos significativos e personalizados.
3.4. Avaliação como interpretação do progresso
A avaliação assume um caráter idiográfico e hermenêutico, centrado na evolução intraindividual (T0 → T1). Instrumentos como o portefólio e o Projeto Práxico Pessoal substituem a lógica classificativa tradicional.
O MPMH© não propõe uma melhoria incremental, mas uma transformação do paradigma pedagógico.
4. Convergências: um terreno comum nos fins educativos
Apesar das diferenças, existem pontos de contacto relevantes entre as duas abordagens:
- Valorização da formação integral do aluno
- Promoção da autonomia e da responsabilidade
- Importância da diferenciação pedagógica
- Articulação com a cidadania e o desenvolvimento pessoal
Estas convergências mostram que existe um consenso quanto aos fins da Educação Física.
5. Divergências estruturais: o núcleo do debate
As diferenças emergem de forma clara quando analisamos os meios para atingir esses fins.
5.1. Objeto da Educação Física
- SPEF/CNAPEF: desenvolvimento de competências
- MPMH©: construção do Ser-Práxico
5.2. Organização curricular
- SPEF/CNAPEF: centrada em matérias
- MPMH©: centrada em projetos e intencionalidade
5.3. Avaliação
- SPEF/CNAPEF: normativa, comparável e classificativa
- MPMH©: ipsativa, interpretativa e centrada no progresso
5.4. Autonomia
- SPEF/CNAPEF: autonomia institucional das escolas
- MPMH©: autonomia ontológica do aluno
Estas diferenças não são meramente operacionais — são estruturais e epistemológicas.
6. Implicações para o sistema educativo
A posição da SPEF e do CNAPEF apresenta-se como:
- Tecnicamente robusta
- Politicamente viável
- Alinhada com o quadro normativo atual
Por outro lado, o MPMH©:
- Amplia o horizonte conceptual da disciplina
- Propõe respostas mais profundas à diversidade e à motivação dos alunos
- Mas exige mudanças estruturais, especialmente ao nível da avaliação
Isto coloca uma questão decisiva:
É possível integrar uma pedagogia centrada na singularidade do aluno num sistema baseado em classificações normativas?
É perfeitamente possível integrar uma pedagogia centrada na singularidade do aluno — como o MPMH© — num sistema de ensino que ainda exige classificações normativas. A chave para esta integração não é ignorar as Aprendizagens Essenciais (AE), mas sim usá-las como o limiar mínimo de desenvolvimento a partir do qual se constrói o percurso singular do aluno.
Em Portugal, o enquadramento legal atual (Decreto-Lei n.º 55/2018) confere às escolas autonomia curricular e pedagógica para gerir, adaptar e enriquecer o currículo.
| Elemento do Sistema Oficial (AE) | Adaptação para o Projeto Piloto (MPMH©) | Como se aplica na prática |
| Matérias obrigatórias | Subáreas Motoras (AM) | As modalidades das AE são ensinadas através de problemas motores e cenários de tomada de decisão (Práxis). |
| Avaliação Diagnóstica | Avaliação Inicial Práxica | Identifica o ponto de partida ético, social, emocional, motor e cognitivo do aluno para desenhar o seu percurso. |
| Diferenciação Pedagógica | Projeto Práxico Pessoal (PPP) | Cada aluno tem metas de progresso ajustadas à sua singularidade, partindo das AE. |
| Níveis de Desempenho | Evolução da Agência Motora | O “Proficiente” das AE é visto como a autonomia motora e ética que o aluno constrói ao longo do seu PPP. |
Adotar o MPMH© no âmbito das Aprendizagens Essenciais não implica criar um currículo paralelo, mas sim dar sentido e autoria ao currículo existente. O Projeto Piloto foca-se em avaliar o quanto o aluno progrediu desde o seu ponto de partida em direção às metas das AE, garantindo que a classificação final seja simultaneamente justa (porque premeia o trabalho e a evolução) e válida perante os referenciais nacionais.
7. Conclusão
A revisão das Aprendizagens Essenciais de Educação Física revela um sistema em evolução, mas também em tensão.
Por um lado, a proposta apoiada pela SPEF e pelo CNAPEF representa uma evolução consistente do modelo existente, reforçando a sua coerência e operacionalidade.
Por outro, o MPMH© introduz uma visão que questiona os próprios fundamentos desse modelo, propondo uma Educação Física centrada na intencionalidade, na agência e na construção de sentido.
Assim, mais do que escolher entre duas propostas, o desafio que se coloca à Educação Física em Portugal é este:
Como articular a necessidade de regulação e equidade com a urgência de uma pedagogia verdadeiramente centrada no sujeito?
É neste espaço de tensão — entre sistema e sujeito, entre norma e singularidade — que se decidirá o futuro da disciplina.
TABELA COMPARATIVA: SPEF/ CNAPEF vs. MPMH
| Dimensão | SPEF/ CNAPEF | MPMH© |
| Natureza da proposta | Consolidação e melhoria do modelo vigente: Ajustar práticas existentes | Reorientação Epistemológica e Reconfiguração do Paradigma: repensar o modelo de ensino desde a base |
| Objeto da Educação Física | Desenvolvimento de competências (motoras, cognitivas, sociais e afetivas): Planear para aquisição de habilidades | Construção do Ser-Práxico através da motricidade intencional: planear para experiências com significado |
| Conceção do aluno | Aluno como aprendente de competências e cidadão em formação: Diferenciar tarefas | Aluno como sujeito ontológico, agente da sua própria práxis: co-construir percursos com o aluno |
| Finalidade principal | Literacia física e promoção de estilos de vida ativos e saudáveis | Literacia práxica e construção de sentido através da ação |
| Organização curricular | Centrada em matérias (desportivas e alternativas) | Centrada em Subáreas Motoras e Projetos Práxicos |
| Estrutura do currículo | Sequencial, progressiva e vertical (por ciclos e anos) | Emergente, personalizada e orientada por intencionalidade |
| Unidade de aprendizagem | Matéria / modalidade | Projeto Práxico (Pessoal e de Escola) |
| Papel do professor | Planeador, gestor do currículo e avaliador | Mediador, intérprete e facilitador de processos de sentido |
| Papel do aluno | Participante ativo no processo de aprendizagem | Autor do seu percurso (Projeto Práxico Pessoal – PPP) |
| Autonomia pedagógica | Autonomia institucional das escolas | Autonomia ontológica do aluno |
| Diferenciação pedagógica | Ajuste a ritmos, interesses e níveis | Personalização profunda baseada na biografia motora |
| Avaliação (natureza) | Normativa e criterial | Idiográfica e hermenêutica |
| Avaliação (referencial) | Descritores nacionais (Proficiente e Avançado) | Progresso intraindividual (T0 → T1) |
| Conceito de “proficiência” | Nível mínimo de sucesso (nível 3 / 10 valores) | Coerência entre intenção, ação e reflexão |
| Instrumentos de avaliação | Grelhas, descritores de desempenho, classificação | Portefólio, PPP, Diário de Bordo, SUAVA |
| Foco da avaliação | Resultado e desempenho observável | Processo, evolução e construção de sentido |
| Comparação | Entre alunos (referencial comum) | Com o próprio aluno (referencial individual) |
| Relação com a saúde | Objetivo explícito (estilos de vida saudáveis) | Consequência emergente da autorregulação (homeodinâmica) |
| Visão do movimento | Meio para desenvolver competências | Expressão existencial e intencional do sujeito |
| Integração da cidadania | Articulação com a ENEC e competências sociais | Construção ética e intersubjetiva da ação (práxis) |
| Viabilidade sistémica | Elevada (alinhada com o sistema atual) | Condicionada (exige mudança estrutural, sobretudo na avaliação) |
Leitura-chave da tabela
Esta comparação evidencia que:
- SPEF/CNAPEF operam dentro do paradigma vigente, tornando-o mais claro, coerente e regulado
- MPMH© propõe um novo paradigma, centrado na intencionalidade, singularidade e construção de sentido
A principal tensão não está nos objetivos, mas sim na forma como se entende o que é aprender em Educação Física
Leitura pedagógica da tabela
Para um professor no terreno, esta comparação traduz-se em três níveis de decisão:
A. Planeamento
- SPEF/CNAPEF → “Que matérias vou lecionar e em que sequência?”
- MPMH© → “Que experiências com significado vou criar para este aluno?”
B. Intervenção
- SPEF/CNAPEF → instrução + feedback técnico
- MPMH© → mediação + questionamento + reflexão
C. Avaliação
- SPEF/CNAPEF → verificar se atingiu o nível
- MPMH© → compreender como evoluiu
Insight final para prática docente
O ponto mais crítico não é “o que ensinar”, mas se o professor está a gerir conteúdos ou a construir percursos de aprendizagem com sentido
| SPEF / CNAPEF | MPMH© |
| Competências | Ser-Práxico |
| Literacia Física | Literacia Práxica |
| Ensino estruturado | Aprendizagem com sentido |