Durante décadas, a Educação Física escolar manteve-se vinculada a um modelo que já não responde aos desafios humanos, sociais e educativos do presente. O desgaste é visível, transversal e estrutural. Não se trata de um problema de professores, de alunos ou de escolas isoladas: observam-se indicadores consistentes de saturação do modelo tradicional, nomeadamente: participação assimétrica dos alunos, centralidade da execução técnica na avaliação, fragmentação curricular, baixa transferência formativa para a vida quotidiana, fragilidade na autorregulação emocional em contexto motor e discrepância entre o discurso oficial de desenvolvimento multidimensional e a prática pedagógica dominante.
Este ano assume um caráter pivotal. Não apenas para a Educação Física, mas para o próprio modelo social que tem sustentado a organização das nossas instituições. Assistimos ao progressivo desmoronar de um sistema social assente na competição permanente, na comparação constante e na lógica da escassez — um sistema que mantém a sociedade num estado crónico de ansiedade, tensão e insegurança.
Este paradigma competitivo estrutura as principais instituições contemporâneas:
Na política, através da polarização e da lógica de vencedores e vencidos;
Na economia, pela obsessão com o crescimento ilimitado, a produtividade e a exclusão;
Na educação, pela normalização da comparação, da hierarquização e da meritocracia acrítica.
A escola não está fora deste sistema — reproduz o próprio sistema.
O papel silencioso da Educação Física na programação social (Currículo Oculto)
Quando a Educação Física assume o desporto tradicional e as práticas desportivas centradas na antítese, na oposição e no confronto como eixo dominante do currículo, está a fazer mais do que ensinar técnicas ou regras de jogo. Está, ainda que de forma não consciente, a programar as mentes dos jovens para uma leitura do mundo onde o outro é adversário, onde o valor emerge da vitória e onde a cooperação é secundária face ao resultado.
Este modelo não é neutro. Ele reforça uma sociedade competitiva que se revela cada vez mais disfuncional, incapaz de responder aos desafios da saúde mental, da coesão social, da sustentabilidade e do bem-estar coletivo.
O problema não é o desporto em si. O problema é a sua centralidade acrítica e a sua utilização como matriz pedagógica dominante, sem mediação ética, sem reflexão práxica e sem alternativas educativas.
O novo paradigma como resposta à sociedade disfuncional
O novo paradigma não nega o conflito, o desafio ou a superação. Mas reconfigura-os a partir da consciência, da relação e da responsabilidade.
Num tempo em que o modelo social baseado na competição se esgota, a Educação Física tem a oportunidade — e a responsabilidade — de deixar de ser um espaço de reprodução da ansiedade social e passar a ser um laboratório de humanização, onde se ensaia uma outra forma de estar no corpo, com os outros e no mundo.
Os sintomas de um modelo em rutura
Apenas um professor que vive diariamente o chão da escola, que observa, escuta e interpreta a realidade concreta dos alunos, é capaz de se aperceber da profundidade das limitações do atual modelo desportivizado da Educação Física. Estas limitações não são imediatamente visíveis nos documentos oficiais, nos relatórios estatísticos ou nos discursos institucionais; revelam-se antes, na relação pedagógica quotidiana, no olhar desligado de alguns alunos, na ansiedade de outros, na exclusão silenciosa dos que não se revêm no gesto técnico normativo.
É no contacto direto com a diversidade biográfica, motora e emocional dos alunos que se torna evidente que um currículo centrado quase exclusivamente nos desportos tradicionais, no rendimento e na comparação normativa não responde à complexidade humana que hoje habita a escola. O professor desperto e consciente percebe que este modelo reduz a motricidade a um instrumento, empobrece o sentido da ação motora e transforma a Educação Física num espaço onde muitos aprendem a cumprir, mas poucos aprendem a habitar o seu corpo com consciência, autonomia e dignidade.
Os sinais de desgaste da Educação Física atual são conhecidos por todos os que habitam o espaço escolar.
1. Desinteresse crescente dos alunos
O afastamento emocional e existencial dos alunos face às aulas de Educação Física não é um fenómeno acidental. Quando o currículo se reduz à execução técnica, à comparação constante e à reprodução de gestos normativos, muitos alunos deixam de se reconhecer na prática. O corpo passa a ser objeto de avaliação, e não sujeito de sentido.
2. Um currículo de “entrega”
O foco deslocou-se do aprender para o cumprir. Cumprir programas, cumprir metas, cumprir classificações. O currículo transforma-se num pacote fechado, aplicado de forma linear, onde o aluno é recetor e não autor do seu percurso. Este modelo ignora a singularidade biográfica, motora e emocional de cada sujeito, assumindo implicitamente que todos aprendem da mesma forma e ao mesmo ritmo.
José Pacheco fez a seguinte pergunta: “Porque é que damos as aulas tão bem dadas e há alunos que não aprendem?” – descobrimos a resposta: se nós damos as aulas e eles não aprendem, então eles não aprendem porque nós damos as aulas” (Inevitavelmente o problema reside no conceito de aula – heteronomia).
3. Homogeneização curricular: “uma medida serve para todos”
A atividade motora foi progressivamente reduzida aos desportos tradicionais e à lógica do rendimento. A riqueza da experiência motora humana — brincar, explorar, criar, adaptar, cooperar, autorregular — foi empobrecida. O movimento passou a ser treinado, mas raramente compreendido.
Uma Educação Física desensibilizada
Este conjunto de sintomas revela algo mais profundo: uma Educação Física desligada do humano. Um modelo centrado no corpo-máquina, na eficiência biomotora e na quantificação excessiva, que negligencia o sentido, a intencionalidade e a dimensão existencial da ação motora.
A Ciência da Motricidade Humana, desenvolvida em Portugal por Manuel Sérgio, produziu há décadas um corte epistemológico claro: o ser humano não é um corpo que se move, mas um Ser-Práxico, intencional, histórico e relacional. O problema nunca foi a falta de teoria — foi a ausência de uma transposição pedagógica consistente para o contexto escolar.
Ao recentrar a Educação Física na formação humana integral, na agência do aluno e na ética da relação com o corpo, o modelo apresenta-se como uma resposta humana para uma educação desensibilizada. A saúde, o bem-estar e a participação social deixam de ser objetivos impostos e passam a ser consequências naturais de uma práxis motora consciente.
“O licenciado (ou mestre, ou doutor) em motricidade humana é assim o agente do ensino, ou o investigador, ou o técnico que, no exercício da sua profissão, procura a libertação dos corpos, rumo à transcendência, rumo ao possível (…)”.