Há séculos que a civilização ocidental vive em função de uma ideia limitadora: a de que somos divididos em dois. De um lado, a mente; do outro, o corpo — uma máquina biológica feita de músculos e reações químicas. No desporto de elite, na educação física e na medicina, este reducionismo ainda impera, tratando o corpo como um motor que precisa de ajuste, ignorando a intencionalidade que o habita.
Propomos aqui uma rutura com este paradigma, articulando a filosofia de Manuel Sérgio, a visão evolutiva de Michael Murphy e a investigação de vanguarda da Fundação BIAL. Desta convergência, emerge o que designamos como o Modelo Tridimensional da Consciência na Performance Humana.
Manuel Sérgio e a Motricidade como Libertação Existencial
Em Portugal, a refundação da Epistemologia do Desporto deve-se a Manuel Sérgio. Ao criar a Ciência da Motricidade Humana, Sérgio lançou a premissa fundamental: “Não há educação física, há educação de seres humanos que se movem”.
Para Sérgio, o corpo não é um objeto, mas sim corporeidade — o corpo imbuído de história e desejo. O movimento humano é uma “transcendência existencial”, o ato pelo qual o sujeito supera a sua condição de “coisa” para se afirmar como projeto de liberdade. Aqui, a performance não é um fim em si mesma, mas a expressão de um “ser práxico” que comunica com o mundo através do gesto intencional.
Michael Murphy e a Evolução das Capacidades Metanormais
Enquanto Sérgio fundamentava a ontologia do movimento na Europa, na Califórnia, Michael Murphy (cofundador do Instituto Esalen) explorava o desporto como um portal evolutivo. No seu tratado The Future of the Body, Murphy cataloga capacidades “metanormais” — performances que desafiam as explicações mecânicas convencionais.

Para Murphy, o ser humano é um sistema aberto. Ele sugere que a prática intensa e consciente pode catalisar processos de neuroplasticidade profunda, sugerindo a possibilidade de que o sistema nervoso se reorganize para manifestar níveis de consciência e funcionalidade biológica superiores. O desporto é, nesta visão, o laboratório para o próximo estágio da evolução humana.
A Fundação BIAL: A Fronteira da Ciência Empírica

Aqui reside o ponto de convergência. Como sustentar estas visões para além da intuição filosófica ou da observação qualitativa? É neste hiato que se posiciona a Fundação BIAL e os seus simpósios “Aquém e Além do Cérebro”.
A Fundação BIAL não atua como uma instância de validação dogmática da transcendência, mas sim como um catalisador para a sua exploração rigorosa. Ao financiar investigações sobre a neuroplasticidade, a interação mente-matéria e os estados não-ordinários de consciência, a Fundação:
- Informa o Holismo de Sérgio: Fornece dados sobre como a intencionalidade e os estados subjetivos podem modular a resposta fisiológica, tratando a unidade psicofísica não como um conceito abstrato, mas como um fenómeno biológico observável.
- Cria Condições para Testar o Potencial de Murphy: Transforma as hipóteses de “metanormalidade” em protocolos de estudo sobre os limites da plasticidade humana e da autorregulação, permitindo que o extraordinário seja mapeado pela lente do método experimental.
- Sustenta a Exploração de Fronteira: Ao investigar fenómenos como a intuição e o flow (Csikszentmihalyi), a BIAL oferece a ancoragem empírica necessária para que a Ciência da Motricidade Humana possa dialogar com a neurociência contemporânea sem perder a sua especificidade humanista.
O Modelo Tridimensional da Consciência
Para operacionalizar este diálogo, o modelo propõe distinguir três dimensões essenciais da consciência na performance:
- Consciência Fenomenológica (A Experiência): O “como se sente” ser o sujeito da ação. É a dimensão central na Motricidade Humana de Sérgio — a perceção subjetiva e o sentido atribuído ao movimento.
- Processos Cognitivos (A Operacionalização): A arquitetura funcional do cérebro (atenção, memória, decisão). É onde a embodied cognition (cognição corporizada) demonstra que o pensamento não ocorre apenas “na cabeça”, mas em todo o sistema sensoriomotor.
- Estados Alterados (A Fronteira): Modificações qualitativas na consciência, como o estado de Flow (Csikszentmihalyi) ou o transe competitivo. Estes estados sugerem que a mente pode moldar a biologia para atingir níveis de eficiência extraordinários.
Conclusão: Uma Nova Antropologia da Performance
A articulação destes três pilares permite-nos desenhar uma nova abordagem para o desenvolvimento humano:
- O Treino é Holístico: O desempenho é a expressão de um ser que procura sentido (Sérgio).
- O Limite é um Horizonte Móvel: A plasticidade humana permite a emergência de novas capacidades através da prática consciente (Murphy).
- A Consciência é Ativa: A mente não é um observador passivo, mas uma força capaz de influenciar a biologia e a performance (BIAL).
O futuro da performance humana não reside apenas na tecnologia externa, mas numa revolução da consciência. Ao unirmos a ética da Motricidade Humana à audácia de Murphy e ao rigor da BIAL, abrimos as portas para uma compreensão do homem onde o corpo e a mente são uma unidade dinâmica em constante superação.
Implicações para a Investigação e a Práxis Pedagógica
Esta síntese não encerra um debate, mas abre uma agenda de investigação que reclama a transição da “ciência pensada” para a “ciência aplicada”. Ao nível do Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©), este quadro conceptual acrescenta uma camada de rigor na operacionalização do “Corte Epistemológico” de Manuel Sérgio, transformando a intencionalidade subjetiva em ferramentas curriculares e critérios de avaliação concretos.
A emancipação dos alunos enquanto “Seres-Práxicos” deixa de ser um ideal abstrato para ser monitorizada através de indicadores operacionais de excelência:
- Autonomia na Prática: A capacidade do aluno de autogerir o seu projeto motor sem dependência externa constante;
- Capacidade de Autorregulação: A gestão consciente do esforço, da atenção e da resposta emocional (articulando os processos cognitivos e estados de flow);
- Reflexão sobre a Ação: O nível de literacia crítica que permite ao aluno explicar o “porquê” e o “para quê” do seu movimento;
- Transferência para Contextos Extraescolares:A eficácia da motricidade na construção de um projeto de vida saudável e autónomo fora do pavilhão desportivo.
Investigações futuras deverão focar-se na validação empírica destes indicadores, monitorizando como a passagem do “corpo-objeto” para o “corpo-projeto” influencia a sustentabilidade dos estilos de vida e a afirmação do aluno como sujeito da sua própria história.
Bibliografia:
Fontes Primárias: Manuel Sérgio e a Ciência da Motricidade Humana
- Sérgio, M. (1994). A caminho de uma nova epistemologia: Epistemologia e desporto. Instituto Piaget.
- Sérgio, M. (2003). Alguns olhares sobre o corpo. Instituto Piaget.
- Sérgio, M. (2012). Para uma nova teoria do desporto. Editora da Universidade de Brasília.
- Jorge, J. M. F. (2026). Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©): Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física. Edição do Autor.
Fontes Primárias: Michael Murphy e o Potencial Humano
- Murphy, M. (1992). The future of the body: Explorations into the further evolution of human nature. Jeremy P. Tarcher/Perigee.
- Murphy, M., & White, R. A. (1995). In the zone: Transcendent experience in sports. Penguin Books.
Ciência da Consciência e Fronteiras (Contexto Fundação BIAL)
- Cardeña, E., Palmer, J., & Marcusson-Clavertz, D. (Eds.). (2015). Parapsychology: A handbook for the 21st century. McFarland & Company. (Nota: Obra de referência para muitos investigadores financiados pela BIAL).
- Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The psychology of optimal experience. Harper & Row.
- Damásio, A. (2017). A estranha ordem das coisas: A vida, os sentimentos e o fabrico das culturas. Temas e Debates. (Nota: Participante frequente nos simpósios da BIAL).
- Fundação BIAL. (2024). Behind and beyond the brain: Proceedings of the 14th Symposium of the BIAL Foundation. Bial Foundation.
- Radin, D. (2018). Real magic: Ancient wisdom, modern science, and a guide to the secret power of the universe. Harmony. (Nota: Reflete a linha de investigação de fronteira da BIAL).
Cognição Corporizada e Neuroplasticidade (Suporte Teórico)
- Doidge, N. (2007). The brain that changes itself: Stories of personal triumph from the frontiers of brain science. Viking.
- Gallagher, S. (2005). How the body shapes the mind. Clarendon Press.
- Varela, F. J., Thompson, E., & Rosch, E. (2016). The embodied mind: Cognitive science and human experience (Revised ed.). MIT Press.