A Grande Transição (1991-2026)


O Despertar da Motricidade

Quando a Ampulheta do Velho Paradigma se Esgota:

Tal como os grãos de areia que caem inexoravelmente numa ampulheta, o tempo dos modelos de ensino puramente biométricos chegou ao fim. O sol está a pôr-se sobre uma era onde o corpo era tratado como uma máquina isolada, mas, no horizonte, já desponta uma nova luz: a da Motricidade Humana.

A transição para este paradigma holístico não é apenas uma escolha pedagógica; é um imperativo histórico que levou décadas a amadurecer. Desde o grito de alerta de Manuel Sérgio em 1989, que nos desafiou a ver a unidade mente-corpo, até à recente revogação dos programas em 2021, a areia tem corrido a favor da mudança.

Passámos décadas “reféns” de uma visão cartesiana, onde o movimento era apenas técnica e rendimento. No entanto, os marcos legislativos de 2017 e 2018 funcionaram como alavancas de transformação, preparando o terreno para que, em 2026, o Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©) se torne a nova bússola das nossas escolas.

O tempo de esperar terminou. A transição é inevitável porque a ciência e a consciência finalmente se encontraram. É hora de virar a ampulheta e começar a construir um futuro onde o movimento é a expressão máxima da liberdade e da humanidade.


O Fim de um Longo Percurso

Durante quase três décadas, a Educação Física em Portugal viveu sob a sombra dos programas de 1991. Embora tecnicamente robustos para a época, estavam profundamente ancorados num paradigma biométrico e cartesiano, onde o corpo era visto como uma máquina a ser treinada e o movimento como uma mera performance técnica.

Morris L. Bigge (1971) no seu livro Teorias da Aprendizagem para Professores (pp. 3), afirma que uma nova teoria da aprendizagem não é incorporada à prática das escolas antes que tenham transcorrido entre 25 a 75 anos após o seu aparecimento.


O Enquadramento Normativo e Legislativo

A evolução é marcada por marcos legislativos fundamentais que preparam o terreno para o MPMH©:

  • 1985 – Ciclo de conferências “Motricidade Humana, Ciência e Filosofia” (Manuel Sérgio)
  • 1988 – Seminário “A Motricidade na Educação para a Reforma” (Manuel Sérgio); No mesmo ano é publicada a Lei Orgânica do ISEF através do Decreto-Lei n.º 153/88, que ainda utilizava a designação antiga, mas já preparava a autonomia da instituição.
  • 1989 – Ciclo de conferências “Motricidade Humana, Uma Nova ciência do Homem” (Manuel Sérgio); Os Estatutos da UTL alteram a denominação de ISEF para FMH; 1989 (Outubro): A Portaria n.º 861-A/89 oficializa a mudança de nome para Faculdade de Motricidade Humana, integrando a nova nomenclatura nos Estatutos da UTL.
  • 1991 – Publicação dos Programas de Educação Física (Ensino Básico e Secundário), que vigoraram durante décadas.
  • Entre 1989 e 2018 (29 anos) – Mudou a denominação FMH, mas manteve o Paradigma: os objetivos e Conteúdos da EF ainda permanecem totalmente vinculados ao modelo desportivo.
  • 2017/2018 – Um ponto de viragem com a publicação do Perfil dos Alunos (julho 2017) e a entrada em vigor das Aprendizagens Essenciais (julho 2018).
  • 2021 – A revogação oficial dos programas de 1991 (Despacho n.º 6605-A/2021), eliminando as amarras do paradigma anterior, mas a EF ainda está ancorada nas Aprendizagens Essências que refletem a sua vinculação aos Programas de EF.
  • 2026 (37 anos) – Publicação do Modelo Pedagógico da Motricidade Humana fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia) de Manuel Sérgio, dando início ao processo de mudança de Paradigma na Práxis Pedagógica.
  • Horizonte 2064 – o esquema lança a questão sobre o que será feito nos próximos 46 anos (completando o ciclo de 75 anos desde a proposta de Manuel Sérgio em 1989).

PeríodoFoco PrincipalReferência Paradigmática
1991-2018Modelo Desportivo/TécnicoCartesiano (Dualidade mente-corpo)
2018-2021Transição / Aprendizagens EssenciaisPerfil dos Alunos / Flexibilidade Curricular
2026+Motricidade HumanaHolístico (Unidade mente-corpo)

Hoje, com a chegada do Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©), celebramos o culminar de uma transição que levou 35 anos a amadurecer.

Esta análise demonstra que o MPMH© não é apenas um novo programa, mas o culminar de um processo de quase quatro décadas para alinhar a prática escolar com a Ciência da Motricidade Humana.


O Paradigma Cartesiano: A Dualidade que nos Limitava


No esquema que analisamos, o período entre 1991 e 2018 representa a resistência da “ciência normal”. O foco era o exercício pelo exercício, a técnica desportiva e a métrica biológica.

  • O Problema: A separação entre mente e corpo.
  • A Consequência: Uma pedagogia fragmentada que muitas vezes ignorava a subjetividade e a intencionalidade do aluno.

O Ponto de Rutura: 2017-2021

A mudança não aconteceu por acaso. Foi preparada por marcos legislativos que funcionaram como “catalizadores” no velho paradigma:

Paradigma Cartesiano (Até 2018): Caracterizado pelo conservadorismo e dogmatismo da “ciência normal”. Mesmo com a criação da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) em 1989, os objetivos e conteúdos da Educação Física permaneceram “reféns” do modelo desportivo e do paradigma cartesiano.

  • 2017/2018: O Perfil dos Alunos e as Aprendizagens Essenciais trouxeram o conceito de competências transdisciplinares. Já não bastava “fazer”, era preciso “saber ser” e “saber pensar” através do movimento.

Paradigma Holístico (Unidade Mente-Corpo): Este conceito surge com força em 1989 através de Manuel Sérgio e da “Nova Ciência do Homem”, mas a sua incorporação prática nas escolas é um processo lento, que pode levar entre 25 a 75 anos.

  • 2021: O golpe final no conservadorismo. Com o Despacho n.º 6605-A/2021, os velhos programas de ’91 foram revogados, deixando o campo livre para uma nova fundamentação científica.

A Cátedra Manuel Sérgio: O Alicerce Ético e Científico

Se o MPMH© é a tradução prática do novo paradigma, a Cátedra Manuel Sérgio (Desporto, Ética e Transcendência) é o seu alicerce teórico. Criada para honrar o pensamento do homem que, em 1989, “cortou o nó górdio” do dualismo cartesiano, a Cátedra não estuda apenas o movimento; estuda o Ser Humano que se movimenta.

A Cátedra Manuel Sérgio não surgiu apenas para homenagear o passado, mas para iluminar o caminho que a Educação Física portuguesa teimava em não trilhar. Enquanto as escolas permaneciam presas à “ciência normal” e aos programas de 1991, o pensamento de Manuel Sérgio funcionava como um farol, denunciando a insuficiência de um modelo que via o aluno como um conjunto de alavancas biológicas e capacidades motoras isoladas.

O desfasamento tornou-se insustentável. De um lado, tínhamos a ciência de ponta produzida na Cátedra e na FMH, que falava em ética, transcendência e na unidade mente-corpo; do outro, tínhamos manuais escolares que ainda reduziam o movimento ao rendimento técnico.

Com a fundamentação da Cátedra, o MPMH© (2026) nasce não como uma imposição, mas como a conclusão lógica de uma evolução que começou com a palavra e terminou na lei.

O que a Cátedra traz para o Novo Paradigma:

  • A Superação do Corpo-Objeto: A ideia de que não “temos” um corpo, mas “somos” um corpo. A motricidade é a expressão da nossa intencionalidade.
  • A Ética e a Transcendência: O desporto e a educação física deixam de ser sobre “vencer o outro” para serem sobre “superar-se a si mesmo” e encontrar sentido na ação.
  • A Ciência da Motricidade Humana: A passagem da Educação Física (muitas vezes vista como simples instrução técnica) para uma ciência que integra a filosofia, a psicologia e a sociologia.

2026: A Consolidação do Paradigma Holístico (MPMH©)

O Modelo Pedagógico da Motricidade Humana, proposto por João Jorge, é a resposta prática à visão profética de Manuel Sérgio (1989). Aqui, o aluno não é um conjunto de músculos em movimento, mas um ser de projeto, um ser práxico.

Modelo Pedagógico da Motricidade Humana©

Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física.

Fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia)

© 2026 João Manuel Ferreira Jorge

Todos os Direitos Reservados

  • ISBN: 978-989-33-9172-3
  • Registo IGAC : 116/2026
  • Esta obra encontra-se licenciada sob a licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Partilha Igual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0).


Conclusão: O Horizonte 2064

Se, como sugere o esquema, as mudanças de mentalidade levam décadas a consolidar-se, estamos agora no “olho do furacão” desta transformação. O compromisso para os próximos 40 anos é garantir que a Motricidade Humana seja o motor de uma educação mais ética, estética e existencial.

A Educação Física não é a educação do físico, mas a educação do Ser Humano através do movimento.” — Esta máxima de Manuel Sérgio é a alma do MPMH© (2026)

O Que Muda Amanhã: Da Instrução Técnica à Pedagogia da Motricidade

A mudança principal reside na passagem de uma pedagogia do “como fazer” para uma pedagogia do “porque fazer” e “quem sou eu ao fazer”.

O Aluno como “Ser de Projeto” e não “Corpo-Máquina”:

  • Antes: O objetivo era o aluno executar o passe de peito perfeito ou o salto em altura mais alto. O foco estava no rendimento (Biometria).
  • Amanhã: O movimento é o meio para o aluno se descobrir. A aula foca-se na intencionalidade. O aluno é convidado a refletir sobre como o seu corpo reage, como se sente no espaço e como interage com os outros (Holismo).