O MPMH© nasce porque a atual EF se esgotou.

Durante décadas, a Educação Física escolar manteve-se vinculada a um modelo que já não responde aos desafios humanos, sociais e educativos do presente. O desgaste é visível, transversal e estrutural. Não se trata de um problema de professores, de alunos ou de escolas isoladas — trata-se de um esgotamento paradigmático.

O Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©) nasce precisamente da necessidade de substituir esse modelo, não por uma moda pedagógica ou por mais uma metodologia, mas por um quadro epistemológico, curricular e avaliativo coerente, enraizado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia de Manuel Sérgio) e numa conceção humanista da ação motora.


Um ano pivotal numa mudança de paradigma social

Este ano assume um caráter pivotal. Não apenas para a Educação Física, mas para o próprio modelo social que tem sustentado a organização das nossas instituições. Assistimos ao progressivo desmoronar de um sistema social assente na competição permanente, na comparação constante e na lógica da escassez — um sistema que mantém a sociedade num estado crónico de ansiedade, tensão e insegurança.

Este paradigma competitivo estrutura as principais instituições contemporâneas:

  • na política, através da polarização e da lógica de vencedores e vencidos;
  • na economia, pela obsessão com o crescimento ilimitado, a produtividade e a exclusão;
  • e na educação, pela normalização da comparação, da hierarquização e da meritocracia acrítica.

A escola não está fora deste sistema — reproduz o próprio sistema.


O papel silencioso da Educação Física na programação social (Currículo Oculto)

Quando a Educação Física assume o desporto tradicional e as práticas desportivas centradas na antítese, na oposição e no confronto como eixo dominante do currículo, está a fazer mais do que ensinar técnicas ou regras de jogo. Está, ainda que de forma não consciente, a programar as mentes dos jovens para uma leitura do mundo onde o outro é adversário, onde o valor emerge da vitória e onde a cooperação é secundária face ao resultado.

Este modelo não é neutro. Ele reforça uma sociedade competitiva que se revela cada vez mais disfuncional, incapaz de responder aos desafios da saúde mental, da coesão social, da sustentabilidade e do bem-estar coletivo.

O problema não é o desporto em si. O problema é a sua centralidade acrítica e a sua utilização como matriz pedagógica dominante, sem mediação ética, sem reflexão práxica e sem alternativas educativas.


O novo paradigma como resposta à sociedade disfuncional

O Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©) emerge neste contexto como uma resposta estruturada a uma crise que é simultaneamente educativa, social e civilizacional. Ao recentrar a ação motora na intencionalidade, na cooperação, na autorregulação e na construção de sentido, o MPMH© rompe com a lógica da oposição como princípio organizador da experiência motora.

O novo paradigma não nega o conflito, o desafio ou a superação. Mas reconfigura-os a partir da consciência, da relação e da responsabilidade.

Num tempo em que o modelo social baseado na competição se esgota, a Educação Física tem a oportunidade — e a responsabilidade — de deixar de ser um espaço de reprodução da ansiedade social e passar a ser um laboratório de humanização, onde se ensaia uma outra forma de estar no corpo, com os outros e no mundo.


Os sintomas de um modelo em rutura

Apenas um professor que vive diariamente o chão da escola, que observa, escuta e interpreta a realidade concreta dos alunos, é capaz de se aperceber da profundidade das limitações do atual modelo desportivizado da Educação Física. Estas limitações não são imediatamente visíveis nos documentos oficiais, nos relatórios estatísticos ou nos discursos institucionais; revelam-se antes, na relação pedagógica quotidiana, no olhar desligado de alguns alunos, na ansiedade de outros, na exclusão silenciosa dos que não se revêm no gesto técnico normativo.

É no contacto direto com a diversidade biográfica, motora e emocional dos alunos que se torna evidente que um currículo centrado quase exclusivamente nos desportos tradicionais, no rendimento e na comparação normativa não responde à complexidade humana que hoje habita a escola. O professor desperto e consciente percebe que este modelo reduz a motricidade a um instrumento, empobrece o sentido da ação motora e transforma a Educação Física num espaço onde muitos aprendem a cumprir, mas poucos aprendem a habitar o seu corpo com consciência, autonomia e dignidade.

Os sinais de desgaste da Educação Física atual são conhecidos por todos os que habitam o espaço escolar.


1. Desinteresse crescente dos alunos

O afastamento emocional e existencial dos alunos face às aulas de Educação Física não é um fenómeno acidental. Quando o currículo se reduz à execução técnica, à comparação constante e à reprodução de gestos normativos, muitos alunos deixam de se reconhecer na prática. O corpo passa a ser objeto de avaliação, e não sujeito de sentido.


2. Um currículo de “entrega”

O foco deslocou-se do aprender para o cumprir. Cumprir programas, cumprir metas, cumprir classificações. O currículo transforma-se num pacote fechado, aplicado de forma linear, onde o aluno é recetor e não autor do seu percurso. Este modelo ignora a singularidade biográfica, motora e emocional de cada sujeito, assumindo implicitamente que todos aprendem da mesma forma e ao mesmo ritmo.


3. Homogeneização curricular: “uma medida serve para todos”

A lógica da média estatística domina a avaliação e a organização curricular. O progresso individual perde relevância face à norma externa. Este pressuposto — designado no MPMH© como erro ergódico — conduz inevitavelmente à exclusão simbólica: quem não se encaixa no padrão sente-se inadequado, incompetente ou invisível.


4. Desportivização redutora da motricidade

A atividade motora foi progressivamente reduzida aos desportos tradicionais e à lógica do rendimento. A riqueza da experiência motora humana — brincar, explorar, criar, adaptar, cooperar, autorregular — foi empobrecida. O movimento passou a ser treinado, mas raramente compreendido.


Uma Educação Física desensibilizada

Este conjunto de sintomas revela algo mais profundo: uma Educação Física desligada do humano. Um modelo centrado no corpo-máquina, na eficiência biomotora e na quantificação excessiva, que negligencia o sentido, a intencionalidade e a dimensão existencial da ação motora.

A Ciência da Motricidade Humana, desenvolvida em Portugal por Manuel Sérgio, produziu há décadas um corte epistemológico claro: o ser humano não é um corpo que se move, mas um Ser-Práxico, intencional, histórico e relacional. O problema nunca foi a falta de teoria — foi a ausência de uma transposição pedagógica consistente para o contexto escolar.


O MPMH© como resposta estruturada e humana

O Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©) surge para colmatar esse hiato. Não é um manual, nem um programa fechado, nem uma coleção de estratégias. É um quadro estruturante que articula:

  • Uma fundamentação epistemológica clara, assente na Ciência da Motricidade Humana;
  • Uma arquitetura curricular flexível, centrada na práxis motora significativa;
  • E um modelo avaliativo ipsativo e hermenêutico, focado no progresso e não na comparação.

No MPMH©, o aluno é reconhecido como autor do seu Projeto Práxico Pessoal (PPP). A aprendizagem organiza-se em torno da intencionalidade, da literacia somática e da construção de sentido através da ação motora, respeitando os Projetos Individuais de Existência consagrados na Lei de Bases do Sistema Educativo.


Da literacia desportiva à literacia práxica

Enquanto o modelo tradicional insiste no “saber executar”, o MPMH© propõe o “saber agir”. Não basta mover-se bem — é necessário compreender porquê, para quê e em que contexto se age.

Esta transição da literacia física para a literacia práxica permite:

  • Inclusão real (todos podem progredir);
  • Autonomia e autorregulação;
  • Transferência das aprendizagens para a vida;
  • Sustentabilidade dos estilos de vida ativos após a escolaridade obrigatória.

Um modelo que veio para durar

O MPMH© não responde apenas a problemas imediatos da Educação Física. Responde a uma crise mais profunda da escola contemporânea: a perda de sentido.

Ao recentrar a Educação Física na formação humana integral, na agência do aluno e na ética da relação com o corpo, o modelo apresenta-se como uma resposta humana para uma educação desensibilizada. A saúde, o bem-estar e a participação social deixam de ser objetivos impostos e passam a ser consequências naturais de uma práxis motora consciente.

É por isso que o MPMH© não é uma tendência passageira. É uma mudança de paradigma, ancorada na ciência, na pedagogia e na dignidade do sujeito em movimento.

João Jorge, 2026

“O licenciado (ou mestre, ou doutor) em motricidade humana é assim o agente do ensino, ou o investigador, ou o técnico que, no exercício da sua profissão, procura a libertação dos corpos, rumo à transcendência, rumo ao possível (…)”.

Manuel Sérgio


Modelo Pedagógico da Motricidade Humana©

Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física.

Fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia)

© 2026 João Manuel Ferreira Jorge

Todos os Direitos Reservados