
- Ontologia (O Ser): Define quem é o aluno (uma unidade indivisível, não uma máquina).
- Fenomenologia (O Meio): Define como ele experiencia o mundo (através da intenção e do gesto vivido).
- Hermenêutica (A Leitura): Define como o professor valida o processo (interpretando o sentido e não apenas medindo o rendimento).
- Transcendência (O Destino): Define para onde caminha o aluno (para lá de si próprio, em direção ao outro e à sua melhor versão).
1. Ontologia
No contexto do MPMH©, a Ontologia não é apenas um conceito abstrato, mas o alicerce que define a natureza do “ser” que está no centro do modelo pedagógico. Se a hermenêutica é o “como compreendemos“, a ontologia é o “quem somos nós” enquanto seres em movimento.
A ontologia rompe com a visão clássica e estabelece-se sobre três pilares fundamentais:
O Ser como “Projeto” e não como “Objeto”
Esta é a maior rutura ontológica do MPMH©.
- Paradigma Tradicional (Ontologia Dualista): Vê o corpo como um objeto, uma coisa (res extensa) que o aluno “tem” e que deve ser treinada e otimizada.
- MPMH©(Ontologia da Motricidade): O ser humano não “tem” um corpo; ele é o seu corpo, ou melhor, ele é a sua corporeidade. A ontologia do MPMH© define o aluno como um “Ser em projeto”, uma unidade indivisível que se realiza através da ação intencional. O movimento é o modo de ser do homem no mundo.
A Motricidade como Essência Humana
A ontologia no seu modelo postula que a motricidade é o que caracteriza o humano.
- Definição: Não é apenas deslocamento físico (desporto), mas a capacidade de transcender a biologia através do sentido.
- Implicação Pedagógica: Quando um aluno joga ou se movimenta, ele está a manifestar o seu “ser”. A aula de Educação Física torna-se, assim, uma “oficina de ser”, onde o objetivo é o desenvolvimento da liberdade e da autonomia, e não apenas o cumprimento de uma tarefa motora.
A Unidade Dialética: Corpo-Espírito-Mundo
A ontologia do MPMH© recusa a fragmentação.
- O aluno é visto como um sistema complexo onde a dimensão física, a emocional, a cognitiva e a espiritual (entendida como busca de sentido) estão integradas.
- Transcendência Ontológica: O ser humano é o único ser que consegue “sair de si” (transcender) para se avaliar e se superar. O MPMH©utiliza a motricidade para treinar essa capacidade ontológica de superação.
“O MPMH© não ensina apenas a mover o corpo; ele educa a forma como o Ser Humano se situa e se projeta no mundo.”
A Ontologia no MPMH© é a afirmação do Ser Humano como uma unidade intencional e transcendente, cuja essência se manifesta na motricidade como linguagem de liberdade e superação constante.
2. Fenomenologia
Para o MPMH© a Fenomenologia é a ferramenta que suspende o julgamento mecânico para observar a experiência vivida.
Aqui estão os três eixos da Fenomenologia no MPMH©:
A Corporeidade (Leib) vs. Corpo Físico (Körper)
- A Fenomenologia distingue o corpo-objeto (o cadáver, a máquina) do corpo-vivido (o corpo que sente, que tem consciência).
- No MPMH©: não olha para o corpo do aluno como um conjunto de alavancas e músculos. Olhamos para a Corporeidade. O foco é a experiência subjetiva do aluno enquanto ele joga ou executa uma tarefa. É a passagem da “Educação do Físico” para a “Educação pela Motricidade”.
A Intencionalidade
- Este é o conceito central da Fenomenologia: toda a consciência é consciência de alguma coisa.
- No MPMH©: Não existe movimento “vazio”. Todo o gesto motor tem uma intencionalidade (um sentido, um para quê). O professor fenomenólogo não corrige apenas a técnica; ele procura compreender a intenção do aluno. Isto corta o tal “nó górdio”, pois une o pensamento à ação num ato único.
A Époche (Suspensão do Juízo)
- Na Fenomenologia, a époche é o ato de colocar entre parênteses as teorias pré-concebidas para ver o fenómeno tal como ele se manifesta.
- Aplicação Pedagógica: O professor do MPMH© suspende os preconceitos do paradigma biométrico (as tabelas de aptidão física, os padrões rígidos de rendimento) para observar o fenómeno da superação de cada aluno. O foco volta a ser a pessoa real que está à nossa frente, e não o “aluno médio” das estatísticas.
A Fenomenologia no MPMH© é o que transforma a aula de Educação Física num laboratório de humanidade. É o que permite que o “vencer” (técnico) dê lugar ao “transcender” (fenomenológico).
3. Hermenêutica
No contexto do MPMH©, a hermenêutica não é apenas uma técnica de interpretação de textos, mas uma atitude pedagógica e ontológica. Fundamentando-se na Ciência da Motricidade Humana de Manuel Sérgio, a hermenêutica no MPMH© pode ser definida através de três eixos principais:
A Interpretação da Ação (O Movimento como Texto)
- No paradigma biométrico tradicional, o movimento é visto como mecânica (ângulos, forças, rendimento). No MPMH©, a hermenêutica propõe que o movimento é um “texto” produzido pelo “Ser em Projeto”.
- Definição: É a capacidade do professor e do aluno de “lerem” a intencionalidade por trás do gesto. Não se avalia apenas se o aluno saltou X metros, mas o que esse salto significa na sua relação com o mundo, com o outro e com a sua própria superação.
A Compreensão do Aluno como “Ser-no-Mundo”
- Inspirada na hermenêutica fenomenológica (de autores como Heidegger e Gadamer, que influenciaram Sérgio), a hermenêutica no MPMH©foca-se na compreensão do sentido.
- Aplicação: O professor não é um instrutor técnico, mas um intérprete das possibilidades do aluno. A tarefa pedagógica é compreender o horizonte de sentido do aluno e ajudá-lo a expandi-lo através da motricidade. É o diálogo entre o que o aluno é e o que ele pode vir a ser (Transcendência).
A Substituição da Explicação pela Compreensão
Esta é a distinção fundamental no MPMH©:
- Explicação (Paradigma Antigo): Analisa as causas biológicas, as leis da física e a técnica desportiva isolada.
- Hermenêutica (MPMH©): Procura o sentido da conduta motora. Por que razão este aluno age assim? Qual o valor ético desta ação? Como é que este jogo contribui para a sua liberdade?
Resumo da Definição no MPMH©:
- A hermenêutica no MPMH©é o processo dialógico de compreensão da conduta humana, onde o movimento é entendido como uma linguagem da liberdade, exigindo que a educação física passe de uma disciplina de “treino de corpos” para uma disciplina de “interpretação e construção de sentidos“.
Com estes três conceitos — Ontologia, Fenomenologia e Hermenêutica — o Modelo Pedagógico não é apenas uma proposta escolar; é um tratado de Antropologia Prática.
4. Transcendência
No contexto do MPMH©, a Transcendência não é um conceito místico ou puramente religioso; é o objetivo último da Motricidade Humana e a “chave mestra” que liga o modelo à Cátedra da Universidade Católica.
Se a Ontologia define o Ser, a Fenomenologia descreve a Experiência e a Hermenêutica interpreta o Sentido, a Transcendência é o movimento de superação que o aluno realiza.
Aqui está a definição de Transcendência no modelo:
A Superação do “Eu” (Vencer-se a si mesmo)
- No paradigma desportivo tradicional, a transcendência é muitas vezes confundida com a vitória sobre o outro ou a quebra de um recorde físico.
- No MPMH©: A transcendência é entendida como a capacidade do ser humano de ir além de si próprio. É o processo pelo qual o aluno supera as suas próprias limitações, medos e automatismos biológicos para atingir um novo patamar de consciência e habilidade. O foco sai do “vencer o outro” para o “vencer-se a si mesmo”.
A Passagem do “Corpo-Objeto” para o “Ser em Projeto”
- A transcendência é o ato de liberdade. É o que permite que um gesto motor deixe de ser um simples reflexo ou uma técnica repetitiva e passe a ser uma expressão de intenção e valores.
- Aplicação: Numa aula de Educação Física fundamentada no MPMH©, um aluno transcende quando utiliza o jogo ou o exercício para exercitar a sua autonomia, a sua ética e a sua relação com o mundo. A transcendência é o que transforma o “movimento” em “motricidade”.
A Dimensão Ética e Social
- Para Manuel Sérgio, e consequentemente para o seu modelo, não há transcendência sem o outro.
- Sentido Comunitário: Transcendência no MPMH©significa também superar o egoísmo do rendimento individual para alcançar a cooperação e o respeito. É a superação da técnica pura em direção à ética da solidariedade. No MPMH©, a Ética da Solidariedade é a tradução prática e pedagógica da Alteridade. Se a ontologia define que o ser é uma unidade e a transcendência é a superação de si próprio, a alteridade é o que impede que essa superação seja um ato egoísta ou narcísico. É o reconhecimento de que o “Eu” só se plenifica na relação com o “Outro”.
5. O “Nó Górdio” da Motricidade Humana
A Solução do MPMH©
| Pilar do Modelo | Conceito Chave | O que rompe (O “Nó”) | Aplicação Prática no MPMH© |
| Ontologia | O Ser em Projeto | O dualismo “Corpo-Máquina”. | O aluno não tem um corpo, ele é uma unidade total (corporeidade). O foco é a pessoa. |
| Fenomenologia | A Experiência Vivida | O movimento como mecânica pura/fisiologia. | Valoriza-se a intencionalidade do gesto e como o aluno sente e vive a ação motora. |
| Hermenêutica | A Compreensão do Sentido | A avaliação pelo cronómetro e pela medida (rendimento). | O professor interpreta o significado da ação. Avalia-se a superação e o valor ético (transcendência). |
| Transcendência | Superação Incessante | O objetivo de “vencer o outro” ou bater recordes. | O objetivo é “vencer-se a si mesmo”. A aula torna-se um espaço de autotransformação. |
Modelo Pedagógico da Motricidade Humana©
Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física.
Fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia)
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