A Espiral Práxica no MPMH©

Um modelo vivo de desenvolvimento humano.


Crítica à Educação Física Padronizada

A Educação Física escolar, historicamente estruturada em torno da técnica normativa e do jogo desportivo, tem-se organizado segundo um modelo de progressão aparentemente linear bidimensional — introdução, elementar e avançado — que, na prática, raramente se concretiza. A escassez de tempo pedagógico, associada à repetição cíclica dos mesmos conteúdos técnicos, conduz a uma aprendizagem centrada no automatismo e na estereotipia gestual, própria de abordagens mecanicistas. Como criticamente sublinha Manuel Sérgio, a crença em padrões de movimento implica aceitar a padronização do próprio mundo, reduzindo o sujeito a executante de gestos pré-definidos. Esta lógica é reforçada pelo que Jean Le Boulch identifica como o caráter analítico e instrumental da Educação Física tradicional, orientada para a decomposição e recomposição dos atos motores através do “drill”, produzindo reflexos condicionados e não ação consciente. O resultado é um empobrecimento da experiência educativa: muitos alunos concluem a escolaridade obrigatória sem ultrapassar os níveis introdutório ou elementar, enquanto poucos alcançam uma verdadeira maturação motora, cognitiva e relacional. Longe de promover autonomia e sentido, esta abordagem tende a desmotivar, uniformizar e afastar os alunos da prática significativa, confundindo Educação Física com iniciação desportiva competitiva.

Para além das limitações técnicas e pedagógicas, o modelo tradicional de Educação Física revela igualmente uma fragilidade profunda no plano moral e relacional. Ao centrar-se na execução correta do gesto, na obediência às regras do jogo e na conformidade comportamental, a ação educativa tende a confundir formação ética com disciplina externa. O aluno é valorizado enquanto “bom executante” ou “bem comportado”, permanecendo cativo de uma moralidade heterónoma, baseada na aprovação do professor, na penalização do erro ou no cumprimento acrítico das normas. Não se promove, assim, uma verdadeira transformação moral, entendida como capacidade de agir com consciência, responsabilidade e consideração pelo outro, mas antes uma adaptação funcional ao sistema. A relação pedagógica reduz-se frequentemente a um dispositivo de controlo e gestão do comportamento, onde a cooperação, a empatia e a autonomia relacional são secundarizadas face à ordem, ao rendimento e à eficácia. Neste quadro, o aluno aprende a obedecer, mas não necessariamente a compreender, a escolher ou a assumir eticamente a sua ação motora.


Da espiral bidimensional da técnica à Espiral Práxica.

É precisamente neste vazio ético-relacional do modelo tradicional da Educação Física que emerge a Espiral Práxica, enquanto núcleo estruturante do Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©). Ao contrário de uma moralidade baseada na obediência e na conformidade gestual, a Espiral Práxica introduz a alteridade como princípio organizador da ação: o sujeito deixa de agir apenas para cumprir regras ou satisfazer expetativas externas e passa a agir em relação — consigo, com os outros e com o contexto. Neste quadro, a intencionalidade operante assume um papel central, deslocando o foco do “executar corretamente” para o “agir com sentido”, isto é, para a consciência do porquê, do para quem e do com quem se age. A ação motora deixa de ser mero comportamento regulado externamente e transforma-se em práxis ética, onde cada decisão implica responsabilidade, ressonância e regulação contínua. Assim, a Espiral Práxica não acrescenta apenas uma nova metodologia à Educação Física; propõe uma reconfiguração profunda da formação moral e relacional, orientada para a autonomia, a consciência e a maturação humana ao longo da vida.



Ação pedagógica coerente, consciente e sustentável ao longo da vida?

No âmbito do Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©), a Espiral Práxica Helicoidal Tridimensional surge como resposta estruturada a este desafio. Não é uma metáfora inspiradora nem um esquema ilustrativo: é um modelo operativo, com fundamento epistemológico na Ciência da Motricidade Humana, que organiza a evolução do indivíduo (ou do grupo) através da integração entre movimento, consciência e sentido.

Neste enquadramento, a Espiral Práxica, enquanto núcleo estruturante do Modelo Pedagógico da Motricidade Humana (MPMH©), será operacionalizada ao abrigo do Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho, que consagra a autonomia e flexibilidade curricular das escolas, permitindo a gestão até 25 % do currículo em função do projeto educativo, do contexto e das necessidades dos alunos. Este dispositivo legal cria as condições normativas para a implementação de modelos pedagógicos inovadores, centrados na diferenciação, no trabalho de projeto e na integração de aprendizagens significativas. A Espiral Práxica enquadra-se plenamente neste regime, ao propor uma organização da ação educativa que articula diagnóstico biográfico, intencionalidade operante e realização consciente, promovendo uma abordagem integrada da motricidade, da aprendizagem e da formação ética e relacional. Assim, a sua operacionalização não constitui uma rutura com o currículo nacional, mas antes uma reconfiguração pedagógica legitimada juridicamente, orientada para a inclusão, a autonomia e a maturação humana ao longo da vida.


O que é a Espiral Práxica de Maturação?

A Espiral Práxica constitui um modelo de desenvolvimento, intervenção e autorregulação práxica, concebido para acompanhar a ação humana ao longo do tempo. Funciona como um sistema de gestão da vida ativa e da aprendizagem, estruturado em:

  • Três fases processuais recorrentes (A + B + C);
  • Três níveis de ciclos temporais interdependentes.

Ao contrário de modelos lineares ou cumulativos, a sua lógica é helicoidal: a ação avança, regressa, ajusta-se e aprofunda-se. Cada realização gera nova consciência, que volta a alimentar o processo.

Ao contrário da espiral bidimensional, típica dos modelos técnico-normativos de aprendizagem, a Espiral Práxica assume uma configuração helicoidal tridimensional, na qual cada ciclo representa não apenas repetição da ação, mas uma elevação qualitativa do sujeito, integrando experiência, consciência e sentido ao longo do tempo.

A Espiral Práxica mimetiza a geometria da vida (a dupla hélice), sugerindo que a motricidade não é algo que se “acrescenta” ao ser humano, mas algo que o codifica e o faz evoluir.

A. Geometria da Evolução (A Hélice Práxica)

Assim como o ADN contém as instruções para o desenvolvimento biológico, a Espiral Práxica contém as instruções para o desenvolvimento da Agência.

  • O Eixo Vertical (Macrociclo de Vida): No ADN, temos as bases azotadas; aqui, temos o Fio Condutor existencial. Sem este eixo, o movimento seria circular (repetitivo) e não helicoidal (evolutivo).

  • A Maturação Contínua: A hélice mostra que o aluno passa pelos mesmos “tempos” (T0, T1, T2), mas nunca no mesmo plano. Cada volta representa uma elevação qualitativa da consciência.

B. Os Nucleótidos do Modelo (A + B + C)

No diagrama, a base da espiral é sustentada pelo grupo A + B + C (Inteligência, Energia e Organização).

  • Estes são os “genes” do MPMH©. Se um destes elementos falha, a hélice quebra e a aprendizagem deixa de ser uma maturação para passar a ser apenas uma acumulação de dados brutos (bio-estatística).

C. A Transcrição e Tradução (Micro e Mesociclos)

  • Microciclo de Ocupação (DPP – Diagnóstico de Perceção Práxica-1): Representa o momento da “leitura” da realidade imediata. É onde a práxis se materializa na ação quotidiana.

  • Mesociclo Flexível: É o mecanismo de regulação e adaptação contextual. No ADN, isto seria a epigenética — como o meio ambiente e a intenção do sujeito moldam a expressão da sua motricidade.

(1) Na práxis, o que importa não é apenas a capacidade física real, mas a forma como o sujeito percebe as suas possibilidades de ação (as suas affordances). O diagnóstico serve para confrontar a perceção com a realidade da tarefa.


As três fases: Conceber – Definir – Realizar

1. CONCEBER – Onde nasce o sentido da ação

A fase Conceber corresponde ao momento de diagnóstico e planeamento práxico-existencial. Antes de agir, é necessário compreender quem age, de onde vem e para onde se orienta. Esta fase integra dispositivos fundamentais:

  • Biografia Práxica– leitura da trajetória motora e existencial do sujeito;
  • Diagnóstico Biográfico– identificação de padrões, ruturas e potencialidades;
  • SUAVA (Linha da Vida Práxica)– representação temporal do percurso;
  • Projeto Práxico Pessoal– enunciação do sentido da ação futura.

Aqui, a ação ainda não acontece. O que se constrói é o porquê agir.


2. DEFINIR – O filtro ético e intencional

Definir é o momento de mediação entre sentido e execução. Esta fase impede que a ação seja impulsiva, automática ou alienada, introduzindo uma dimensão ética e relacional. Inclui:

  • Filtro da Alteridade– consideração do outro e do contexto;
  • Intencionalidade Operante– clarificação do que se pretende transformar;
  • Ressonância e Regulação– ajustamento contínuo entre intenção, ação e efeito.

É nesta etapa que a práxis ganha direção consciente e responsabilidade.


3. REALIZAR – A operacionalização do sentido

A fase Realizar corresponde à ação propriamente dita. O planeamento transforma-se em vida através do Fio Condutor, isto é, da coerência entre metas, ciclos e experiências concretas.

No MPMH©, realizar não significa apenas executar. Significa agir com sentido, sabendo que cada ação produz novos dados para uma nova conceção. A realização nunca é o fim do processo, mas o seu reinício.


A Espiral Práxica: O ADN e a Arquitetura Temporal do MPMH©.

A configuração helicoidal tridimensional da Espiral Práxica constitui o autêntico “ADN” do MPMH©, transcendendo a linearidade mecânica da planificação tradicional para instituir uma ontologia de maturação contínua. Nesta arquitetura existencial, a organização temporal do modelo funde-se com a própria geometria da vida: o macrociclo de vida atua como o eixo vertical de sentido — o Fio Condutor que orienta a trajetória global e o progresso do sujeito ao longo do tempo.

Nesta hélice, os mesociclos flexíveis operam como as voltas intermédias da espiral, permitindo a adaptação contextual, a reorientação intencional e a regulação do percurso sem perda de coerência sistémica. Por sua vez, os microciclos de ocupação representam cada unidade concreta de experiência quotidiana, onde a práxis se materializa e gera novos dados de consciência. Assim, cada retorno ao ponto de partida na hélice não representa uma repetição cíclica ou estática, mas sim uma elevação qualitativa: uma síntese superior onde o “Ser-Práxico” integra corpo, consciência, relação e sentido, transformando a ação vivida em novos patamares de agência e transcendência.

A Espiral Práxica organiza-se em três níveis temporais articulados, rejeitando a ideia de progressão linear uniforme.

Macrociclo de Vida

Representa o horizonte de longo prazo. É o Fio Condutor existencial, onde se inscrevem as metas estruturantes, os valores e o sentido global da trajetória.

Mesociclo Flexível – Adaptação contextual

Situado nos momentos de transição, o Mesociclo Flexível permite ajustar a rota sem perder coerência. É aqui que o modelo revela a sua plasticidade, integrando mudanças internas e externas.

A ferramenta central deste nível é o Portfólio Práxico, dispositivo de reflexão, regulação e tomada de decisão.

Microciclo de Ocupação – Treino existencial

É o nível do quotidiano, onde a ação acontece efetivamente. Cada gesto, cada prática, é registado no Diário de Bordo Práxico e entendido como experiência formativa, não como mera repetição técnica.


Metas SMART e equilíbrio do Ser

A dinâmica da Espiral Práxica é alimentada por metas SMART, organizadas em quatro dimensões complementares:

  • AMR– Recreativa;
  • AMF– Funcional;
  • AMS– Saúde e Bem-Estar;
  • AMP– Performance.

Este enquadramento impede a redução da motricidade a um único critério (rendimento, saúde ou lazer), garantindo uma visão integrada e equilibrada do sujeito.


A Espiral Práxica como núcleo hermenêutico do MPMH©

No contexto do MPMH©, a Espiral Práxica é a sua representação hermenêutica central. Enquanto modelos como o de Siedentop organizam a aprendizagem num círculo bidimensional orientado para o gesto técnico normativo, a Espiral Práxica propõe um processo tridimensional de maturação contínua.

Esta tridimensionalidade manifesta-se em três eixos:

  • Ação / Espaço– o contexto, o corpo em relação, a situação;
  • Tempo / Maturação– a história biográfica e a progressão ao longo da vida;
  • Sentido / Consciência– a hermenêutica da ação, a inteligibilidade do agir.

O objetivo não é a conformidade do gesto, mas a coerência da práxis.


Conclusão: da técnica à maturação humana

A Espiral Práxica traduz uma mudança profunda de paradigma. Em vez de perguntar apenas como executar melhor, convida-nos a perguntar porque agimos, para quem e com que sentido.

No MPMH©, aprender a mover-se é aprender a existir em relação. A ação motora torna-se espaço de consciência, responsabilidade e construção de sentido ao longo da vida.

Mais do que um modelo pedagógico, a Espiral Práxica é uma proposta de maturação humana em movimento.


Modelo Pedagógico da Motricidade Humana©

Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física.

Fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia)

© 2026 João Manuel Ferreira Jorge

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