Da Conceção à Disseminação do MPMH©

Etapas de Implementação de um MPMH© no Sistema Educativo

Este artigo descreve, de forma estruturada e progressiva, as etapas fundamentais para a conceção, implementação, validação e disseminação de um Modelo de Pedagogia da Motricidade Humana (MPMH©) no contexto do sistema educativo português. Partindo da prática docente em Educação Física, o texto propõe um percurso sustentável, legalmente enquadrado e replicável, articulando inovação pedagógica, bem-estar, inclusão, regulação emocional e desenvolvimento integral do aluno. O objetivo é oferecer um referencial operativo para educadores, escolas e decisores interessados em reposicionar a Educação Física como eixo estruturante da educação integral.


Introdução

A inovação pedagógica em Educação Física enfrenta, frequentemente, dois riscos opostos:

  • Por um lado, a improvisação acrítica, desprovida de fundamentação e continuidade.
  • Por outro, a hiper-teorização, desligada da realidade concreta da escola.

O MPMH© surge como resposta a esta tensão, assumindo-se não como uma rutura abrupta, mas como um processo evolutivo, enraizado na prática docente e progressivamente sistematizado. A sua construção respeita o princípio de que nenhum modelo pedagógico se legitima apenas pela coerência conceptual, exigindo validação no terreno, reflexão contínua e abertura à transformação.


Fase I — Pré-modelo: a prática antes do nome (até 2024)

Antes de existir enquanto entidade formal, o MPMH© existiu como prática diferenciada. Nesta fase, não há ainda designação, documento-base ou intenção de disseminação.

Há, sim:

  • Observação crítica do quotidiano escolar.
  • Inquietação pedagógica face ao paradigma dominante.
  • Experimentação empírica de abordagens centradas no aluno enquanto sujeito práxico.

Esta etapa é fundamental porque legitima o modelo: O MPMH© não nasce de uma construção teórica abstrata, mas da realidade concreta da aula, das limitações do sistema e das possibilidades que emergem quando o professor assume uma postura reflexiva.


Fase II — Conceção estruturada: dar forma sem impor (2024–dezembro de 2025)

Entre 2024 e o final de 2025, o modelo entra numa fase de conceção consciente e estruturada.

Clarificam-se progressivamente:

  • Os fundamentos epistemológicos.
  • Os princípios pedagógicos.
  • O papel do professor enquanto mediador fenomenológico.
  • O impacto esperado nos alunos, não apenas ao nível motor, mas existencial.

Importa sublinhar que esta fase decorre sem imposição institucional e sem exposição pública alargada. Trata-se de um período de maturação interna, essencial para evitar fragilidades conceptuais e contradições operativas.


Fase III — Nascimento formal: o modelo passa a existir (janeiro de 2026)

Em janeiro de 2026, o MPMH© assume existência formal:

  • Adquire uma designação clara.
  • Apresenta-se como proposta pedagógica estruturada.
  • Consolida-se num documento-base com identidade própria.

Este momento constitui um marco simbólico e operacional.

  • O modelo deixa de ser apenas prática implícita e passa a ser objeto comunicável, analisável e testável, sem que isso signifique, ainda, implementação alargada.

Fase IV — Implementação piloto: a prova no terreno (ano letivo 2026/2027)

A fase de implementação piloto é a mais crítica de todo o processo. É aqui que o modelo se confronta com a realidade do ecossistema escolar.

A aplicação do MPMH© ocorre:

  • Numa escola concreta.
  • Em turmas específicas.
  • No âmbito da Educação Física regular.
  • Com observação contínua e ajustamentos em tempo real.

No MPMH©, o foco pedagógico desloca-se da lógica de desempenho técnico-normativo para a organização intencional da práxis motora enquanto experiência significativa. A ação motora deixa de ser um fim em si mesma e passa a constituir um espaço privilegiado de construção de sentido, relação e autorregulação:

Neste enquadramento, emergem de forma orgânica dimensões como:

  • O clima relacional, resultante de tarefas motoras que favorecem a cooperação, a escuta corporal e a legitimação do erro como parte do processo.
  • A regulação emocional, entendida não como treino separado, mas como capacidade desenvolvida no interior da experiência motora vivida e refletida.
  • A inclusão, não enquanto adaptação periférica, mas como princípio estrutural de tarefas abertas à diversidade práxica dos alunos.
  • A autoridade pedagógica positiva, fundada na clareza intencional do professor e na coerência entre proposta, acompanhamento e avaliação.
  • O sentido atribuído à ação motora, enquanto eixo central do modelo, permitindo ao aluno reconhecer-se como sujeito da sua própria experiência motora.

Desta forma, a Educação Física assume-se como espaço de educação integral, não por acumulação de objetivos externos, mas porque a própria práxis motora, quando pedagogicamente intencionalizada, se torna formativa em si mesma.

Desde o primeiro dia, a produção de evidência faz parte da própria prática pedagógica. Não se trata de acrescentar instrumentos à aula, mas de tornar visível e refletível o que acontece na práxis motora. 

No enquadramento do Decreto-Lei n.º 54/2018, a avaliação no MPMH© assume natureza idiográfica, formativa e reguladora, centrada no progresso do aluno face a si próprio, e não na comparação normativa entre pares.

Para esse efeito, recorrem-se a instrumentos qualitativos, situados e coerentes com uma lógica de investigação-ação tácita, rigorosa e eticamente situada, nomeadamente:

  • Portefólios praxiológicos dos alunos – evidenciam o percurso individual de apropriação da ação motora, da regulação emocional e do sentido atribuído à experiência;
  • Diário reflexivo do professor – permite avaliar a adequação da mediação pedagógica às necessidades singulares dos alunos e do grupo.
  • Registos de decisões pedagógicas e ajustes efetuados – documentam medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, em coerência com os princípios do DL 54/2018.

Estes instrumentos não visam a validação estatística do modelo, mas a construção de evidência pedagógica interpretativa, ancorada na experiência vivida e na coerência interna do MPMH©.

A avaliação deixa assim de incidir sobre a execução técnica padronizada, passando a focar-se na evolução da conduta motora significativa, garantindo equidade, inclusão e respeito pelos ritmos individuais.

O produto final de 2026/2027 é um relatório pedagógico interno, com linguagem clara, não academicista, centrada no impacto educativo. Este documento funciona simultaneamente como:

  • Escudo institucional.
  • Semente científica.
  • Base para desenvolvimentos futuros.
DimensãoInstrumentosO que se avaliaPerspetiva
SubjetivaPortefólios, narrativas, autoavaliaçõesSentido atribuído à ação motora, autorregulação, agênciaAluno
PráxicaDiário reflexivo, registos de decisõesCoerência da mediação pedagógica e eficácia da práxisProfessor
InstitucionalPlanificações, relatórios, enquadramento legalAlinhamento com DL 55/2018, DL 54/2018 e PASEOEscola

Fase V — Consolidação: da experiência local ao modelo replicável (2027–2028)

A fase de consolidação visa transformar uma experiência situada num modelo pedagogicamente transferível.

As ações centrais incluem:

  • Sistematização dos resultados.
  • Ajustes conceptuais com base na prática.
  • Expansão controlada (mais turmas ou uma segunda escola).
  • Criação de um núcleo MPMH©, composto por professores curiosos e reflexivos.

Neste contexto emerge uma comunidade praxiológica, onde o modelo deixa de depender exclusivamente do seu autor e passa a ser co-construído.

Paralelamente, o MPMH© assume uma lógica de publicação aberta:

  • Documento vivo.
  • Licença Creative Commons.
  • Arquivo público online.

Esta opção protege a autoria intelectual e, simultaneamente, retira o controlo exclusivo às instituições, favorecendo a circulação ética do conhecimento.

O produto final desta fase inclui:

  • Um manual pedagógico praxiológico.
  • Relatórios comparativos entre contextos.

Fase VI — Disseminação: autonomia e escolha (2028 em diante)

A partir de 2028, o MPMH© entra numa fase de disseminação sustentada.

Neste momento, abre-se uma verdadeira liberdade de escolha:

  • Integração académica.
  • Liderança pedagógica autónoma;
  • Formação contínua(CFAE).
  • Consultoria pedagógica.
  • Redes de escolas inovadoras.

O modelo passa a existir para além do seu autor, mantendo-o como referência ética e conceptual, mas não como único agente de validação.


Conclusão

O percurso do MPMH© demonstra que a inovação pedagógica sólida não nasce de decretos nem de ruturas espetaculares, mas de processos responsáveis, documentados e partilháveis. A Educação Física, quando pensada a partir da Motricidade Humana, pode assumir-se como um espaço privilegiado de educação integral, sentido existencial e cuidado pedagógico.

Não se trata de pedir autorização para inovar, mas de inovar de forma responsável, consciente e partilhável.


Modelo Pedagógico da Motricidade Humana©

Quadro epistemológico, curricular e avaliativo para a Educação Física.

Fundamentado na Ciência da Motricidade Humana (Cinantropologia)

© 2026 João Manuel Ferreira Jorge

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